quarta-feira, 28 de novembro de 2007

A Hora do astro - D. Donson

Engraçado pensar na insignificância e obsolescência do tempo. O tempo, que pacientemente conta seus segundos e parece estar sempre a espreita aguardando para marcar a hora H de todas as coisas. Ironia maior é saber que um segundo isolado é a tênue diferença entre a vida e a morte, entre a lucidez e o último fio de pensamento daquele que inspira e expira o que outrora foi o sopro da vida.
E foi numa destas muitas noites mórbidas, frígidas e soturnas que o relógio marcou o exato momento da despedida de um dos meus. O círculo peculiar de pessoas que naturalmente nos cercam – querendo ou não, a pluralidade é a lei da terra – o círculo começou a andar. Sim, digo círculo peculiar porque este é meio quadrado, entende? Na verdade ele é mutante, sem forma fixa, sem identidade definida. As cortadeiras, como de praxe, não tardaram a chegar com seus sacos de lágrimas na mão para iniciar sua verossímil missão: chorar.
Resisti ao máximo para não exteriorizar o breu e a neblina que de súbito observei dentro de mim. Saiba que não tenho medo dos fortes ventanias, nem das tempestades aterradoras, porque eu também sou a escuridão da noite. O que de fato me intriga e me incomoda até a medula, é o barulho uníssono das vozes insólitas e dissolutas que permeavam o ambiente.
Eles jamais poderiam imaginar que uma forma infalível de se ter, é não desejar, e apenas acreditar que o silêncio contido naquele caixão é a resposta ao grande mistério da vida. Seria surpreendente se todos descobrissem que não há nada a ser descoberto. O que é factível é somente o que os nossos olhos podem alcançar. Deve ser um ultraje ou um apelo a vaidade intelectual do homem crer que todas as coisas são exatamente o que elas aparentam ser e que a morte nada mais é do que a cobrança dos juros do efêmero contrato que assinamos quando resolvemos por a cara neste mundo.
Compreendo que a dor da saudade deva ser latente nos pobres corações – o que não concebo é o porque tanta estima, tanto esmero não é expresso enquanto ainda respira o falecido.
Nas tardes vazias, no ócio da palavra amiga que constitui a amarga solidão, onde estavam estes que agora lhe tocam a mão?
Nos natais triviais, no inevitável dia dos pais, onde estava seu círculo quadrado que agora exige mais e mais?
Da minha poltrona confortável eu tinha uma visão panorâmica e privilegiada. Cada olhar furtivo, cada gesto meticulosamente premeditado, cada palavra afável e ao mesmo tempo contrabandeada, tirada do intransferível acervo pessoal daqueles que amam em secreto.
De que ainda aplaudir o artista quando este já está fora de cena? De que adianta dar a ele mil rosas roubadas em prova de sua importância, quando este já foi habitar nos campos santos?
Porque não reconhecer a luz de um astro quando ele ainda existe e seu brilho ainda se espalha? Já não há mais poesia e nem prosa que possa refletir com exímia perfeição a luz que agora se apagou. E como diria Clarice: “quem não é um acaso na vida?”.
Quanto a mim? Fiquei oco, plácido e impassível. Com um sabor nostálgico na boca do que poderia ter sido e não foi. Fiquei ali, querendo dar arrivederte e ao mesmo tempo segurando a explosão. Acho que foi a rica paz que invadiu minhas fortalezas, e efusivamente evitou a guerra.
Expressei-me através da inexpressividade, meu silêncio falou bem mais.
Não posso esquecer que também faço parte deste círculo meio quadrado e vicioso.
Sim.