terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Encontro Marcado - D. Donson


Entôo um novo cântico, uma nova canção que esteve muito tempo ausente dos meus lábios. O amor está presente, como sempre. Não saberia descrever com exatidão o tipo de amor que estou me referindo. Apenas sinto que o amor é um dom que não se apaga, não se ufana, não trata com leviandade, não se infla com a inveja, não se ensoberbece, não é inconveniente. Um sublime e incorruptível dom. Algo que ultrapassa inclusive a palavra, posto que há carência de palavras inventadas que o descrevam com exatidão, com exímia exatidão.
Meu maior conflito é travado entre meu osso e minha medula, indo até o interior de meu coração e depois nas fortalezas de minha mente plangente. Apenas sei que meu labor consiste em pensar, em questionar-me e estas veleidades transformam-se nas muitas perguntas que ninguém até hoje ousou responder. Entretanto, não irei mais complicar aquilo que é demasiadamente simples. As coisas que já aprendi. Renato já disse que são as pequenas coisas que valem mais. Estou acreditando em mim novamente, me darei outra chance. Por que as pequenas coisas para mim, já são acessíveis e, o resto é pura efemeridade. Esta medíocre busca adicional que culminará em outras perguntas e estas, certamente me matariam – literalmente.
Vou tirar esta caiada do rosto, verei claramente novamente e aquilo que agora está oculto, se manifestará para glorificação de um plano mais elevado. Sei bem que aqueles que lêem minhas palavras confusas – se é que existe interlocutor, pois faço disto uma conversa totalmente impessoal e restrita entre meu ente mental, um psicanalista nato, provido de um intelecto racional e material e meu ente emocional, um coração metafísico que não desiste de achar o caminho certo e desconsiderar os aspectos niilistas da vida – certamente acreditam que a razão leva a compreensão de todas as coisas. Bobagem! Tais verdades são como as ondas do mar, que são reféns do vento e são levadas cativas aonde quer que ele vá.
Busco algo maior. Busco estar perto do coração selvagem da vida, porque concordo com a Clarice, liberdade para mim é pouco. E não terei medo de homilias atípicas que usarei para dublar o que está sendo traduzido em mim. Outra forma de ter é desejar de todo o coração e também crer que o silêncio que naturalmente trazemos dentro de nós, não é a resposta ao nosso mistério e sim, a projeção da pergunta que cedo ou tarde será respondida. Guardo em mim o grito de um mundo inteiro. E não é fácil segurar a verdade do mundo dentro de mim. Sim, à Clarice. Concordo com o fato de que todo ser humano é um pouco triste e um pouco só. E a admiro por falar sobre nossos lobos tão abertamente, claro que utilizando o subterfúgio dos seus personagens, mas quem não usa de personas para encarar a vida?
Mas um dia, um belo dia, acontece isto a toda criatura: "(...) De repente a máscara de guerra da vida crestava-se toda como lama seca, e os pedaços irregulares caíam no chão como um ruído oco. E eis rosto agora nu, maduro, sensível quando já não era mais para ser. E o rosto de máscara crestada chorava em silêncio para não morrer". (Uma Aprendizagem)
Simplesmente, após isto ter me ocorrido, não sinto falta da minha máscara. Sinto-me vivo, intrépido, revigorado, como vinho novo, sabe? Isto se deve ao fato de eu ter inclinado os meus ouvidos para ouvir o que naturalmente não consigo. Abri os olhos do meu coração para enxergar o que o físico se recusa a me mostrar. Como a Violeta e a Margarida:
“Margarida a Violeta conhecia, uma era cega a outra bem louca vivia, a cega entendia o que a louca dizia, e acabou vendo o que ninguém mais via." Compreendeu?
Estou em constante sinergia com este verso: “... Todos nós somos um (unidade) e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro - existe a quem falte o delicado essencial”. (A hora da estrela)
E se há algo que eu possa fazer por mim, é não perder meu delicado essencial. Não quero ter o mesmo fim que o Cidadão Kane, e observar que após uma vida inteira tratando as pessoas como coisas e obtendo lucro através disto, depara-se com a face sombria e irreversível da morte, constatando que o único momento de genuína felicidade foi quando sua mãe lhe empurrava no velotrol – a infância que guarda a fantasia do perfeito. Ele perdeu seu delicado essencial. Tratarei de ser exatamente como o que sou. Não viver na linha do arbitrário, do estóico e inflexível.
Mas dançando no escuro, sem medo de cair, confiando na força maior que não posso ver, apenas abstrair. Dançarei sob o sol da meia-noite, em saltos sincronizados, herméticos e meticulosos para desarticular a escuridão e inventar uma nova relação com o tempo. Sei estou meio cansado, não posso negar. Contudo, não me permitirei escolher novas máscaras. Sei que este é o primeiro ato voluntário e solitário do homem, mas quero me habituar a olhar no espelho e além de me reconhecer, quero acreditar na minha limitação, na delineação da minha figura e me dispensar um sorriso sincero, alvo, reconciliatório até. Pagarei o preço, transportarei os montes com expressão iridescente. Já ouço as vozes sibilantes que me motivam e encorajam a prosseguir, em detrimento de todo obstáculo. E de qualquer luta ou descanso, me levantarei forte e belo como um cavalo novo.