sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Uma nova tela - D. Donson

Estou pintando um novo quadro. A tela ainda está pálida e sem forma, mas acho que se eu usar o vermelho, irei retratar toda vida que corre nas suas veias e nas minhas. Sim, porque o sangue nada mais é do que a expressão brutal e latente da vida dos organismos vivos. A cor também lembrará o amor, o verbo no infinitivo que cerca a atmosfera de todo ser que respira. Não posso me esquecer do preto, que permanece sendo minha cor favorita. Lançarei a tinta abruptamente, para que a minha mente não reflita sobre possíves traços voluntários. Isso remeterá a doce ilusão que só as aparências podem causar. Sim, porque as aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam, pois o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões. Qual é a cor do ódio? A mistura de todas elas. O ódio é um grande mentiroso, que não assume que ama incondicionalmente e por isto anda soltando fumaças, tentando provar afirmações, inquirindo, requirindo e fazendo crer que a sua existência é totalmente legalizada. Portanto, ele estará presente na tela mesmo que eu não queira. É uma força da natureza. Usarei o azul, que desde a infância não me chama mais atenção, mas que na certa tem o seu valor imaterial. Ele talvés servirá como uma tentativa, uma efêmera tentativa de me levar de volta ao meu passado de um jeito misterioso e contraditório. Um passado que me transformou no que hoje eu sou. Gosto do branco, pois ele me transporta para o início de tudo. E não pense que é ruim recomeçar, não! Insisto na idéia de sempre recomeçar, sempre rever. Somente o branco me dá a permissão de misturar outras cores, outros tons e meticulosamente reinventar tudo que eu destruo com tanta facilidade. E este mesmo poder destrutivo eu sei manifestar em tudo e em todos, menos na minha arte. Abusarei do verde, verde claro. Verde claro em abundância, por favor me entenda! Geralmente não uso esta cor, acho ela muito previsível, sendo comum, sabe? Mas hoje eu acabarei com a única bisnaga que há muito já comprei. Sabe, a simplicidade do verde me impressionou de repente. Cheguei a conclusão de que ninguém precisa complicar demasiadamente, é preciso simplicidade para fazer florecer. De súbito pude constatar que as cores quentes são maravilhosas para ajudar-nos a passar os invernos intermináveis que as vezes atravessamos. Além do mais, a esperança está explicita nesta cor. Contudo, ainda sinto falta de mais cores. De mais cores ou de mais telas? Nenhuma pintura é íntima o suficiente para traduzir o que as vezes sinto, nenhuma palavra é tão eloqüente ao ponto de eu me fazer entender para quem mais desejo. E nesta tentativa retórica de me auto-conhecer é que eu me perco. Paradoxalmente, me ocorreu que o poeta estava certo quando disse: "...E que seja preciso eu me perder para finalmente me encontrar."