quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Medo - D. Donson

Quando o sol vai embora, e a noite anuncia as horas de trevas, ele começa a invadir meu quarto como a fumaça densa de uma fogueira acesa em minha porta. Sequer pede licença, simplesmente entra como se conhecesse cada milímetro da minha fortaleza. Não há como escapar. Concluí que ele já deixou de ser um agente externo e transitório para fazer parte de mim. Assim como uma parasita se alimenta de seu hospedeiro, o medo suga minhas energias e meu direito de pensar livre de sua influência. Algumas coisas que tenho medo são irreveláveis, outras, somente compreensíveis.

Tenho medo de não acordar, do sopro da vida deixar meus pulmões enquanto ainda repouso da fatídica missão de continuar a viver, cada dia de uma vez – e o maldito calendário me engana, me confunde e me aliena do tempo e do espaço do qual faço parte.

Tenho medo de gente, porque nenhuma gente é genérica e padronizada, o que me faz tentar abstrair uma série de comportamentos e realidades totalmente diferenciadas e distintas uma das outras. Eis outra fatídica missão: sociabilização. Desde que entrei na sociedade deste planetinha, tenho tentado ser comum – agradeça se você é comum e possui uma ‘comunidade’, pois este nome denota uma comum unidade, o que eu desconheço por força das circunstâncias e da natureza. – e por várias vezes me adequar aos valores e tradições que ela prega, mas que ironicamente se contradiz. De que me adianta a tal civilidade? Que ninguém se engane, a minha simplicidade artificial é uma luta ferrenha entre a expressão e o entendimento. Ser comum é maravilhoso! A excentricidade é minha grande inimiga, é a sombra que corre ao meu lado, em constante sinergia com a minha dúbia, mas afável presença.

Tenho medo de contemplar a destruição de todas as coisas que acredito. Mais ainda, das coisas que amo. Sim, pois se há algum antídoto para o medo e se alguma virtude realmente possui poder transformador, esta é o amor. Isto seria o fim da estrada, o fim da ideologia, da sublime vocação. A ideologia é a única coisa de valor em um homem, posto que todo homem é miserável por si só e, portanto, se alimenta de uma, criada por si ou dada por terceiros. Há um fragmento irrecobrável no âmago do ser humano. Acha ele, em sua tola e vã superstição que perdeu algo em algum lugar. Verdade é que nunca esteve com ele, apenas uma ideologia pode persuadi-lo a crer que o que busca está escondido atrás do relógio, então ele passa a vida toda crendo que quanto mais o ponteiro gira, mais próximo fica o seu glorioso futuro e o encontro com o saudoso fragmento - utopia. Somente assim se consegue nelsonrodrigueseanamente encarar a vida como ela é.

Eu tenho medo acima de tudo de mim mesmo. Não tenho medo do diabo ou daquilo que não é tangível. Contudo, meus lobos vivem guardados numa caixinha compacta, ávidos por uma insólita oportunidade de mostrar as suas garras a platéia, que quer mais é pão e festa. Minha autopsicanálise culminou num pragmático senso de ridículo, que me acusa de maneira julgadora e inapropriada. Meu lado pessoal tornou-se impessoal, meu inimigo mortal é meu lado fatal. Meu fatal lado esquerdo, como diria Drummond. É nestas horas que eu resolvo hibernar, como um urso safado que espera a pior estação passar para somente então ir à caça.

Tenho medo essencialmente do frio, porque ao certo não sei, mas ele me remte uma nostalgia intimista e retrógrada, como se fosse necessária várias vidas, vários ambientes, várias cronologias para eu conseguir o que realmente desejo. O que desejo? Esta é a pergunta mais evasiva e recorrente que me faço quando o sol reaparece, acho que desejo respostas. Desejo ser intrépido o suficiente para escolher o que desejar e não ter medo conhecer o que ora se não é manifesto. Desejo acertar não o alvo que os outros não conseguem, e sim, o alvo que eles não podem ver.