quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Uma Rainha Anônima – por Marcolino.

Ela era magra, negra fosca, talvez tivesse 52 anos e cerca de um metro e oitenta de altura. Não poderia dizer o porquê, mas desde a primeira vez que a vi na calçada uma súbita suspensão de realidades me tomou, eu sabia exatamente quem ela era: agora e antes. Com seu carrinho compacto cheio de ferramentas de limpeza, estava sempre apressada cruzando os quarteirões da Avenida Paulista, de olho no seu pequeno relógio dourado. 

Não houve ocasião para conversarmos. Já entendi desde cedo que se tratava de uma mulher muito ocupada, não poderia interrompê-la nos seus dez minutos de intervalo entre um prédio e outro. Em seu uniforme branco e azul, impecavelmente alinhado, lia-se nas costas: “Limpeza Veloz, limpamos escritórios em apenas 50 minutos”.

Não sei que espécie de arrebatamento me fez enxergar essa mulher com uma delicadeza primeira que mesmo ela desconhecia. A grande precisão com que organizava seus espanadores, panos e desinfetantes, ela era esmerada, diligente e conhecia muito bem seu trabalho. Ninguém o faria melhor que ela. O que quer que ela se propusesse na vida, era o tipo de pessoa que “ninguém faria melhor”. Era o que se pode chamar de uma vida incumbida.

Sua postura era ereta, o andar, decido. Esboçava cerca altivez involuntária que somente rainhas possuem. Então seria isso? Seria ela uma rainha africana que, ao caminhar com seus olhos graúdos e cinzas erguidos para uma linha imaginária acima de seu corpo, fazia com que, nós, seus súditos, reconhecessem sua autoridade e, por isso mesmo, se prostrassem diante de sua grandeza e magnificência? Encostado no tronco de uma árvore, eu a observada em cada meticuloso gesto, estarrecido por essa espécie de benevolência que temos diante dos santos ou de artistas que admiramos muito.

Bastava então telefonar para receber um das meninas da “Limpeza Veloz”. Contudo se eu ligasse, chamaria especificamente ela, ela que não sei o nome. Por vezes ela estava em turma. Duas ou três colegas que, como formiguinhas, se dividiam agilmente entre os quarteirões da Avenida Paulista. Mas nenhuma das outras possuía essa venerável nobreza de rainha nata como ela.

O cabelo crespo estava sempre alinhado em tranças na raiz, era tão ousada que usava um baton cor de café. Tamanha era sua vaidade e autoestima que nas bochechas secas nota-se também passava um pouco de batom vermelho, conferindo desnecessário rubor a sua cara preta e limpa. O corpo era reto e magro, uma chefe tribal em pele de mulher cotidiana e anônima. Ela esgueirava-se entre os executivos com uma dignidade que os ultrapassava. Ela caminhava, na verdade, dentro de seu mundo feliz e de imperceptível graça, com a gentileza e bem-aventurança que nessa cidade (meus Deus!) era o que mais faltava.

A nossa terra era seca e as bocas sem saliva se misturavam na multidão com aquela atmosfera de estresse, de impaciência, de carreiras, de coisas mais importantes, mas ela era toda úmida e alegre e despreocupada. Carregava consigo sua garrafinha de água e seus braços negros brilhavam no sol. Houve um dia que a vi sorrindo com suas colegas. Dentes mais brancos no mundo não deveria haver. Ela parecia estar em paz com sua vida, esse era seu segredo: estava satisfeita. Resignação e a falta de ambição são coisas absolutamente distintas. Resignação é uma forma de paz e essa a fazia flutuar com seu carinho cheio de produtos mágicos.

Sobre o que ela meditava a cada 50 minutos é-me impossível de contar. Entretanto sei que em sua cabecinha de mulher ela tinha mil ideias de vida, de sociedade, de amor e perdão. E de essencialidade divina também. Sabia como ninguém que a desorganização exterior das pessoas, tanto no trabalho como em casa, era sintoma do caos interior que guardavam em segredo inviolável para si mesmos. Para ela, ser livre, ser básica e ser organizada, eram coisas tão óbvias que nem mencionava em seu currículo.

Nossos olhos se cruzaram uma única vez. Foi então que eu soube. Seu trabalho a fazia se sentir como uma pessoa incumbida. A minha inveja de pessoas incumbidas. Justo eu que estive a vida toda procurando uma incumbência real e legítima, que revelasse talvez... talvez uma vocação. E a altiva limpadora veloz a me mostrar como se produz uma vida feliz, caminhando como ela, livre como ela, básica como ela. Ela, que nada a ninguém devia e ninguém a ela. Sozinha, satisfeita e alegre.

Como num torpor de ambição, eu quis me unir ao sentimento dela. Será que também eu teria habilidade ou competência para ser um “limpador veloz”? Eu estava prostrado diante da rainha, poderia começar limpando pequenas coisas, atento aos detalhes e ao indispensável rigor com que ela olharia os objetos. Até que ela desapareceu na sacada de um prédio. Não trocamos contato. Não trocamos nada. Talvez voltasse a vê-la como em outras vezes. Mas o que importa é ela me deu, generosamente e vagarosamente, um exemplo. Ela me deu talvez a maior de todas as tarefas de uma vida: achar uma incumbência.

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