quarta-feira, 20 de março de 2013

Março, um mês para se morrer de vida - D. Donson


De repente, era março. Com suas nodosas raízes, ele vira março se levantar diante de si como uma grande árvore de outono. Naquele mês, ele estava de uma atenção muda, ansiedade controlada, sabia que algo estava para nascer ou morrer. E se fosse uma morte, seria das mais acidentais e tolas. Mas alguma coisa aconteceria antes do dia 31, dizia sua alma que nem em sono podia descansar de forma despojada e livre de inquietações. Como aquela danação de estiagem que antecede a vinda de uma grande chuva, há tempos esperada no sertão que era o seu próprio mundo. Esse alívio, esse contentamento manso, esse ato glorioso de tirar as sandálias e descansar os pés, isso tudo em um mês tão discreto e sem grandes anunciações.

Março não demorara como ele havia pensado tempos antes. Março levantara a sua lâmina da justiça – a mesma que certa cartomante lhe vaticinara – com a urgência sobre-humana de quem está escapando da prisão. Março era todo místico, um mês para se acreditar em tudo, todos os portais pareciam abertos. Dentro de um silêncio interior prazeroso, ele deixara-se perder em devaneios cada vez mais ousados em um mês de tantas possibilidades, tão atroz quanto perplexamente revelador.

Março era para todas as fés se unirem, era para superar a cotidiana mediocridade espiritual. Ninguém que se julguesse um pouquinho sensível deixaria de notar a atmosfera geral de mudanças que aquele março parecia trazer. Mas era algo para se viver solitariamente e fingir desconhecimento. Como uma graça prodigiosa que se eleva de súbito em nosso espírito, como um feche de luz em quarto há dias fechado e umedecido. Lembrou-se então que, fossem quais fossem os resultados das sementes que plantara, março havia chegado com suas chuvas torrenciais – nada seria como antes. As chuvas fariam brotar o que ele havia semeado ou afogariam de vez as verdes folhas de sua frágil esperança, seus esforços de ampliação de vida.

Apenas quem havia captado certo relance saberia que março era de surpresas irremediáveis, um mês em que cada dia pulsava acelerado, como coração de atleta em maratona olímpica. E quem o amava, também sentia esses batimentos. Esse mês que, aos poucos, foi se tornando tão difícil e duro... Um monte a ser escalado com joelhos sangrando. Mesmo que ele soubesse que já havia ultrapassado os anos 2000 em uma corrida desesperadora e sem medalha, o novo milênio aconteceria apenas a partir daquele março. Cataclísmico, avassalador, deixaria marcas.

Até mesmo o tempo começara a mudar. O frio viera abraçar a cidade às vezes poluída em cinza cortina, às vezes de tímido e alaranjado sol. Era o prenúncio de que se devia esperar as decisões da natureza. As chuvas, o súbito frio, a vida. A vida era tão precisa e misteriosamente impessoal que não necessitava da ansiedade dele para acontecer. Ela aconteceria com ou sem ele, mas a sua interferência no campo aberto que era a vida era também sua capacidade humana de se transmutar, a si e às realidades. Tudo isso em um mês que, dentro dele, se repetiria sempre.

Ele se apaixonara pela efusividade que sentira ao acordar em março. Efusividade que também lhe doía todas as noites antes de dormir. Mas, resignado, por toda sua vida, estava decidido a viver de março em março.

Um comentário:

António Jesus Batalha disse...

Ao passar pela net encontrei o seu blog, estive a ler algumas coisas e posso dizer que é um blog fantástico,
com um bom conteúdo, dou-lhe os meus parabéns.
Se desejar faça uma vista ao Peregrino e sevo e deixe o seu comentário.
Sou António Batalha, do Peregrino E Servo.