quinta-feira, 16 de abril de 2009

A Dengue como ela é - Por Daniel Donson


Hoje, pela primeira vez, vi o mosquito. Não um mosquito qualquer, mas o ilustríssimo Mosquito da Dengue. Ele repousava calmamente em um vaso de planta, em via pública. Parecia não se sentir incomodado com minha presença. Nem eu com a dele. Mas logo pensei: as pessoas afamam tão mal este mosquito, seria mesmo só culpa dele todo o dano que sua picada causa?


Por desconhecer as características científicas da doença, apelei para Deus, aquele que tudo sabe e que jamais criaria um serzinho de tamanha pequenez para dizimar a humanidade. Esta foi a explicação plausível e de pronto fui me simpatizando pela figura do mosquito. O fato é que todo mundo partirá um dia, e o mosquito, com ou sem ironia, apenas antecipa o nosso encontro com o Criador.


Por ser ele uma ponte entre o homem e Deus, não se poderia rebatizá-lo “Mosquitinho Divino”? Afinal, ele não é de todo perverso. Vergonhoso é o comportamento da sociedade que o trata como coisa abominável, traiçoeira e letal. E é mesmo. No entanto, a partir do momento em que temos tantas outras mazelas sociais, culturais e educacionais, Dengue se torna somente um subterfúgio grotesco que distrai a atenção da questão central.


A “questão central” é sempre muito ampla e plural. No Brasil, morre-se muito mais por bala perdida e homicídios e desnutrição e câncer e Aids do que por ação direta do seu Aedes. E Dengue é fruto de falta de formação, de instrução, de habitação digna. O mosquito não pede para nascer – simplesmente aprende a voar.


No fundo o Aedes queria ser parceiro e deixar de picar. Contudo, se isto acontecer, todos passarão a prestar atenção na verdadeira causa da Dengue, que faz parte da “questão central” que fundamenta as disparidades do País. A Dengue é a política e os governantes, a Dengue é a passividade e o egoísmo do povo, a Dengue é o dinheiro roubado e as vidas também roubadas. A Dengue é o mundo.