segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Um apólogo - Machadito


UM APÓLOGO
ERA UMA VEZ uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo? — Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa. — Decerto que sou.
— Mas por quê? — É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados... — Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto... Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana
— para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha: — Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima.
A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic plic-plic da agulha no pano.
Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?
Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Nós, os sonsos - Por D. Donson


É dada a largada. De todas as partes, do beco mais improvável da cidade aparecem candidatos sorridentes e eloqüentes, ávidos pela conquista dos votos que significarão quatro anos estabilidade. Oras, hoje em dia quem consegue receber seis mil reais, trabalhando poucas horas por dia? O pré-requisito é persuadir mil semelhantes a acreditarem na sua benevolência, altruísmo e principalmente visão de melhoramento social.
Os tímidos se tornam extrovertidos, os vulgares forjam certo freio moral, os leigos se esforçam na oratória e os corruptos, ah os corruptos se elegerão involuntariamente. Tudo o que obviamente não presta sempre me interessou muito. De tal modo que adoro analisar o perfil de cada candidato. O que, entretanto, tem me incomodado são os nomes irônicos e antológicos que eles lançam mão, a fim de se elegerem com mais facilidade.
Os candidatos acreditam, depois de brevíssimas lições de psicologia social, que se nós, os sonsos essenciais, associarmos seus nomes a seus negócios iremos de boa fé depositar nossos votos. Afinal, que motivo teríamos para desconfiar da competência de alguém que comanda um ‘buteco’, de quem lida diariamente com o alcoolismo? É que de repente nasceu a utopia da mudança e todos querem ser políticos para mudar as estruturas atuais: pelos menos as individuais, é claro.
Como dizia Nelson Rodrigues: “hoje em dia é difícil ser honesto. Todas as pressões cooperam para nosso aviltamento pessoal e coletivo”. Como posso acreditar na eficiência de alguém que sequer conhece a etimologia da palavra política? Tudo bem sobre a etimologia. Mas como posso acreditar na eficiência de alguém que apenas sabe juntar sílabas e sequer compreendeu as mendacidades que estou abordando? Quero a exposição de tudo, embora a verdade seja um relance que poucos captam, pois ela ainda não foi escrita – está nas entrelinhas.
Estou sendo manso, mas minha função de viver e denunciar a vida é feroz. Eles estão subestimando nossa capacidade mental, apelando para recursos prosaicos de associação. Se é necessário associar, é porque nunca ouvimos falar; logo, a procedência é dubitável.
Sinto é uma falta pungente de sinceridade em todos. Fala-se em democracia e cidadania, mas estes direitos que velam meu sono são tão irreais. Pago tanto e recebo tão pouco. É isto que eles têm para me oferecer? Às vezes não entender o funcionamento evita dores. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, uma doçura de burrice.
Porém, não posso ser arbitrário. As pessoas são iguais potencialmente. Pode ser que o inesperado traga coisas e a política se regenere, pois a eternidade é o estado das coisas neste momento, é próprio "statu quo". Estou certo de que não seremos enganados, não mais. Nós, os sonsos essenciais, somos no mundo de várias formas para preservar nossa liberdade. Na verdade a gente é sempre como você vê: podemos ser leves como uma brisa, ou fortes como uma ventania. Depende de quando e como nos vêem passar.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A Pragmática da Educação - Por D. Donson

O modelo educacional que observamos atualmente é ilusório e carente de reformas. Os valores da sociedade contemporânea estão aquém do que um dia se convencionou chamar de Educação. Inúmeros fatores contribuem para o que, usualmente, costumo chamar de Alienação Generalizada e que abrange todas as classes, credos e raças, indiscriminadamente.
A verdadeira lucidez, como eu a digo, se manifesta exclusivamente através da educação. Contudo, até mesmo o conceito de educação se encontra deturpado. O ambiente escolar, que ideologicamente seria um espaço destinado à prospecção do capital intelectual e cultural das pessoas, tornou-se um mero pré-requisito curricular, para uma posterior boa colocação profissional, para um posterior bom salário, para um posterior bom carro, para um posterior bom apartamento, para uma posterior vida medíocre repleta de coisas e que é encerrada sem a menor essência existencial permanente – que é a revelação do lobo do homem e a escolha particular de proteger as ovelhas perdidas, pois toda ovelha é burra.
E as pessoas continuam em suas rotinas frenéticas, sem ao mesmo contemplarem o objetivo sublime de fazer o que fazem, de buscar um aperfeiçoamento maior.
Daqui de baixo tenho visão panorâmica dos mundos, porque não me enquadro em sistema algum. Tenho um “contra-alguma-coisa” que me norteia nos constantes contatos que faço com o mundo real. Não possuo classe social: a classe alta me acha um monstro, a média teme que eu possa desequilibrá-la e a baixa nunca vem a mim. De modo que minha percepção sobre ser e estar e ser e ter, tem se tornado meu grito de ave de rapina, irisada e intranqüila. Espero acordar outros seres gritantes para que, em uníssono, possamos dar o grito de aviso de estarmos vivos.
Entendo o porquê a escola continua em alta, com sua grade estupidificada. No ato da matrícula, a premissa é acordada: nunca questionar demais, dúvida é coisa de perigosa - mata. Assim, todos os que se atrevem a entender, desorganizam o esquema. Sobretudo a educação de hoje está fadada ao protocolo e as regras. Ela deveria vista como um processo contínuo visando a autonomia da pessoa humana. O triste fato é que, bem ou mal, com advento das tecnologias, o ensino está cada vez mais mecânico e defasado. Para que pensar em gramática? O “Word” corrige.
A internet informa, mas não forma pessoas analíticas ou efetivamente preocupadas com algum tipo de mudança estrutural, social ou não – inércia coletiva. O "Eu" e o "Meu" são predominantes em todos os aspectos da vida. Trato de fatos abstratos e ocultos, mas enquanto tiver perguntas e não obtiver respostas, continuarei a escrever.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Um trem para as estrelas - Por D. Donson

Hoje eu pego o trem, hoje eu pego o trem
Não avisarei a ninguém, de malas prontas partirei.
Eu já estou com o pé na estrada, finalmente serei Requiem
Não sei se o que falo é o que sou, mas meu nome... Este guardarei.

Ouvi, relva do campo, ouvi, acordes do vento!
Estou voltando, estou chegando ao orgânico alento.
O rosto queimado, o suor e a fatiga
Quero um canto de paz, sem vozes atrozes,
Sem rimas antinas.

Hoje pego o trem, hoje pego trem
Estou fugindo da terra dos homens, da força gravitacional.
Cansei da limitação dos que não voam, do real - saberei o que há em Marte
Sou metafísico, imaterial, sou Hembrandt, sou Arte.

Ouvi seres gritantes, ouvi o brado dos bons!
Não estamos em paz com esta nova guerra
Que se dá no recôndito dos corações,
No foro íntimo da humanidade.

Lutamos por um novo tempo, aniquilaremos a passividade
O que importa deveras é recomeçar e construir novas edificações.
Ouvi guerreiros ardis, logo vem o trem para as estrelas
Do alto da serra, levando os feridos desta nova guerra.

E a reticente primavera breve será cortada
Mas voltará mais forte e bela ano que vem
Se a geração que ora alvorece continuar atada
Desaparecerá com a seca, não alcançará o trem...

Sou um andarilho divagante, um réu de meus ideais.
Vivo cada instante esperando um trem – o trem da salvação
Há tanto que já me perdi, temo em encontrar-me tarde demais,
E receber como pagamento, a grande medida do silêncio e da solidão.

Mineirinho - Conto



“É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que esta doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: ‘O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no Céu.’ Respondi-lhe que ‘mais do que muita gente que não matou’.Por que? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.
Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina - porquê eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.
Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. Até que treze tiros nos acordem, e com horror digo tarde demais - vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu - que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for preciso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva. Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente - não nas conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta. Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça. A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo e Mineirinho - essa coisa que move montanhas e é a mesma que o faz gostar ‘feito doido’ de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador - em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, não me perdi, experimentei a perdição. A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porquê adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime . Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma. Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila, e que os outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer. Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.
Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo - uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do S. Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muita séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é o desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.
Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização. Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso - nesse instante estásendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranqüila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno”.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Sociopatas da Esfera H – O FEED

Pelo espírito de Dark Sheep Donson:

“Esta carta é como uma carta qualquer. Mas eu ficaria extremamente grato se fosse lida apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que em dado momento, a verdade torna-se a nossa maior inimiga. Aquelas que sabem que em dado momento, dizer a verdade torna-se a missão cabal de uma vida, que, sobretudo quer ser uma verdade que se reinventa com o tempo. E a verdade incomoda porque não é obsoleta. E a verdade não está à tona, está oculta, submersa em profundidades de mar. Entretanto, como a luz forte do meio-dia, ela se fará saber em poucas linhas, não para vergonha, mas para reflexão de uma nova forma de ser-no-mundo”.

Sociopata é uma definição alegórica que encontrei para meus personagens: Elemento 1 e Elemento 2. No entanto, embora pareça peculiar, o termo sociopata talvez seja o adjetivo mais adequado para definir meus nobres cavalheiros. De antemão, informo que não tenho compromisso com a realidade, e, nem mesmo que responsabilizo pelas colocações de Dark Sheep. Ele é controverso, mas uma coisa nele é constante: sinceridade. Esta sinceridade às vezes dói, como a luz do sol no reboco da parede branca. Mas fez de Dark Sheep um contestador, um espírito contraventor que desafia as estruturas errôneas de quaisquer sistemas e seus integrantes.
Sim, fico feliz por Dark Sheep habitar em mim, pois de vez em quando ele se manifesta, e eu, como ser inofensivo e quase domesticável deixo ele atuar de forma inexoravelmente precisa e justa. Sinto em gastar a tinta de minha caneta com estes personagens, pois eles não valem o preço que paguei nesta Bic, sequer sei se eles merecem o espaço que os dedico, a eles e a suas histórias. Estou com o coração divagante, sôfrego, pois Elemento 1 e 2 me remetem a uma cólera primeira, como nunca antes senti. Porém, sei que com a ação do tempo, esta mesma cólera irá conflagrar um terno sentimento de piedade e misericórdia, e isto me humanizará novamente.
Falemos sobre meu favorito: Elemento 1. Adjetivos não lhe cabem, ele quer é ser o próprio adjetivo, de modo que a glória jamais possa ser maior em outro corpo. Este Elemento guarda segredos que estão totalmente nus ao espírito que ora se manifesta nesta carta. Dark Sheep voa pelos ares, em busca da verdade do universo. E nestes vôos, muitas descobertas são feitas. Elemento 1 esconde conflitos, que agora não são mais irreveláveis e estão vindo a tona, do fundo do mar. Elemento 1 gosta de ter seu ego inflado, inflado, inflado. E se inflama quando algum outro elemento, tecnicamente desqualificado, o ultrapassa sem precedentes. Este elemento não é de todo detestável, é amável quando quer... quer algo. Seu maior sonho é dominar a palavra, é se tornar um elemento letrado e magníloquo. Infelizmente, meu personagem não sabe que a palavra não é conseguida a tapa, nem a torturas e nem através de extorsões do dicionário.
A palavra não pode ser forjada, nem violentada. A palavra nasce tacitamente de um contato sublime e íntimo com a Terra. A palavra, como eu as digo, é resultado de anos de exercício e admiração, não somente pela beleza sonora dos signos (atmosfera de descobertas infinitas), mas, sobretudo pela graça incomensurável da expressão. Expressar a alma humana, os pensamentos, os anseios, o metafísico, o onírico, o lúdico... Isto é inviolável e inalienável.
Meu personagem ainda não aprendeu que precisa aprender a curvar a sua cerviz. Elemento 1 não entende que o saber é indomável, e que o saber empresta seus conteúdos para todo aquele que está disposto a passá-lo adiante. Isto implica diligência. Quem acha que já sabe o suficiente, logo é ultrapassado pelo mais primitivo aprendiz. Acredita ele, em sua vã filosofia artificial e nada singular, que o saber o elevará, ou o emancipará de alguma maneira. Em partes é verdade. Mas a conduta é o precedente básico para quem deseja estar entre o raro e o comum. Meu personagem odeia ser prosaico, porém não tem pedigree, nem a fibra dos bons revolucionários. É covarde.
Certa vez, cansado do ócio improdutivo de sua vida diária, tentou inovar empreendendo uma fatídica revolução. Infelizmente, a revolução não alcançou mais de que um adepto. Não obstante, em tempos recentes empreendeu uma inquisição contra mim. Entretanto, a manifestação de Dark Sheep Donson me salvou da fogueira, no momento ideal, na hora H, na esfera H. Esta esfera retangular que esconde uma porção de egos espavoridos e pavorosos lutando por um reconhecimento imaginário. Fiquei exultante ao ver os faróis da justiça. Era uma espécie de antítese grotesca da famosa história de Dom Quixote e Sancho Pança, só que desarticulei o final.
Elemento 1 é acusado de cometer diversos crimes contra a escrita, é réu inconfesso. Tudo em uma tentativa pandemônica de ser eloqüente e bem posto. Já eu não tenho compromisso com absolutamente nada e ninguém. Faço questão de ser um eterno amador, pois isto me dignifica e não me padroniza. Escrevo o que espontaneamente me ocorre. Escrevo para ficar livre de mim e isto traz propriedade ímpar às minhas palavras. Não escrevo simples porque não sou simples. Não escrevo o que quero, e sim, o que de fato sou. Caro leitor, eu nunca disse que a carta seria interessante e o teor não é literário, mas libertário.
Elemento 1, depois de ter encontrado outros elementos não menos amorfos e assexuados, tratou de fazer deles seu séqüito para adentrar no social. Elemento 2 é relativamente intelectualizado, e por isto, meu elemento favorito achou que poderia ser confundido com esta desprezível tipologia. Não falarei muito sobre Elemento 2, o mais sectário de todos. Ele, por se achar demasiadamente grande, ganhará o menor espaço, o que dedico aos leigos e iletrados. Reduzirei este elemento ao cargo de aprendiz, de copiador dos outros e parco repetidor de falas. Embora eu tenha que assumir que Elemento 2 dispõe de certo capital cultural, isto de maneira alguma o elitiza, ou exalta.
Não faz questão de ser sociável, assim como eu. Não é fruto de minha criação, porque não gero mutantes deste patamar. É talvez o elemento mais maniqueísta e altivo que tive o inenarrável desprazer de conhecer. Contudo, é mortal e sensível: isto o reduz drasticamente. E novos elementos vindos das entranhas da terra vão sendo agregados ao pitoresco clube. Alguns totalmente passivos e alienados, outros, excêntricos e rebeldes. Todos em busca da sinergia do contraponto, do oposto. Querem eles atingir o Nirvana? Mal sabem que o bom do universo são as coisas simples e sem rebusco. As coisas simples são as mais difíceis de aceitar. O valor do outro, a essência humana são meus objetos de estudo constante e vitalícios. Não busco a exatidão científica, mas a construção e o melhoramento gradativo do ser-no-mundo.
Eu criei Elemento 1, com toda minha intrepidez e ousadia. Ele está desnudo para mim e sem segredos agora que resolvi publicá-lo. Poderia a criatura se rebelar contra o seu criador? Elemento 1 me deve obediência e subserviência porque além de ter sido criado pela minha existência, ele teve oportunidade de crescer em melhores condições do que eu. Não uso isto como subterfúgio, não. Embora seja mais antigo, não possui grandes méritos ou hegemonias sobre quaisquer habilidades. Não agregou muita coisa desta vida. Limitou-se a respirar e existir, respirar e existir, desconsiderando a magnitude do mundo real e do mundo dos sonhos.
Eis que agora quer recuperar o tempo perdido, sendo o que poderia ter sido e não foi. Genuinidade não lhe cabe. Sua caiada está exposta para todos. Neste momento, sei que ele está numa sala escura me praguejando, embora sugue até o fim o vocabulário que voluntariamente dôo, já que não me pertence. Empertigado. Eu, objeto de sua admiração e revolta. Justo eu que sempre me portei e essencialmente fui tão benevolente. O meu pecado? O de pensar, é claro. Oras. O de ser humilde o bastante para ler Virginia Wolf antes de criticá-la e despender opiniões robustas sobre ela. Já Elemento 2 prefere o silêncio de sua alcova. Planeja o ataque meticulosamente pelos ermos digitais, muito embora sua arrogância só tenha lhe dado a grande medida da solidão e do isolamento. Ardilosos. Elemento 1 odeia literatura brasileira. Talvez se sinta deslocado no espaço geográfico.
Em criança, eu também desconfiava de minhas origens. Mesmo na dúvida, aprendi o português com certo louvor, para somente então buscar no inglês e no verbo “To be” as frestas de um novo mundo. Meus personagens gritam, precisam ser ouvidos. São crianças carentes, precisam de colo. Eu escondo minha carência para que não me arrastem. Dia destes, as águas me trouxeram cenas corridas. Veja, meus personagens tencionavam me impedir de mudar de turma. No auge da típica frivolidade e soberba, queriam me impedir de cursar meu caminho. Como se adversidades me causassem pavor. Risos.
Mal sabem que Dark Sheep foi forjado no fogo da desigualdade, do desencanto e da desesperança. De modo que a derrota nem de longe me assusta. As adversidades nos fazem indesistíveis, inabaláveis. Em suma, não me recordo de nada do que disse, e se me perguntarem sobre a sintaxe ou semântica deste texto, responderei em outra língua. Quem fala é meu lobo. O lobo do lobo do homem, do qual falou Bandeira. O lobo da estepe, do qual falou Hersse.
Meus personagens resolveram ressurgir dos recônditos do msn para enunciar a criação de novas idéias. Como se a produção deles fosse de fato digna de crédito. Como se o passado não emitisse, uníssono, os erros ainda não concertados. Na nova e irônica empreitada, a missão dos elementos é provar aos outros elementos tidos como inferiores e não pertencentes à raça ariana que eles são profissionais gabaritados e do mais alto escalão. Utopia. Entropia. Eu? eu apenas desejo all the very best e prefiro não cooperar com seus ímpetos, negando-lhes minha atenção. Só ousei publicar meus personagens para poder matá-los. Sim, não os deixarei vivos. Contudo, sei que eles já morreram e ainda não sabem. Morrerão duas vezes, ninguém mais ouvirá palavra sobre estes mentecaptos. Ah... ah... ah... estou movido de compaixão. É que estas mentes todas vivas têm a força de um inferno. Adeus. Vou saindo vagarosamente para não morrer com vocês. Agora as máscaras estão ao chão, e se não renascerem, estes elementos apenas servirão de matéria orgânica que em breve adubará o solo.

"É que depois de anos de verdadeiro sucesso com a máscara, de repente – ah, menos que de repente, por causa de um olhar passageiro ou uma palavra ouvida – de repente a máscara de guerra de vida cresta-se toda no rosto como lama seca, e os pedaços irregulares caiam com um ruído oco no chão. Eis o rosto agora nu, maduro, sensível quando já não era mais para ser. E ele chora em silêncio para não morrer. Pois nessa certeza sou implacável: este ser morrerá. A menos que renasça até que dele se possa dizer “esta é uma pessoa”."

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Levantando Vôo - Daniel Donson

Dia destes me disseram que sou contestador. Pela primeira vez, em toda minha insólita vida, um adjetivo me caiu bem. Não gosto de adjetivos. A grande maioria deles são pretensiosos ou arbitrários. Transformam alguém segundo sua própria classificação sem dar ao sujeito a chance de um escolha voluntária.
Prefiro a palavra não dita. A tácita comunicação de uma parede no escuro - a parede que me impede de sair deste quarto em vôos fúlgidos, frêmitos e lívidos. A borboleta mais antiga sempre se esvoaça e choca-se contra esta mesma parede. Deveras borboletas inteligentes não saem nunca de seus casulos. É preferível contar com a segurança abstrata de um mundo meticuloso e delineado, do que se aventurar em vôos rasantes sobre a verdadeira terra.
Meu problema real é que sou a antítese dos homens. Embora até hoje tenha sido acompanhado pelo vício da racionalidade e da contemplação excessiva, sou muito mais os bichos. Tenho em mim mesmo o coração selvagem que observo na natureza, na cachoeira que rebenta na serra, no cavalo que corre para os campos verdejantes. O mesmo sonho de liberdade que aprisiona a borboleta na parede mítica e onírica que ela tratou de criar para si. A verdadeira liberdade aprisiona!
O que liberta é a aspiração de ser livre e ser livre é para poucos – utopia animal. Eu nunca fui uma vez sequer livre: por dentro eu sempre me persegui. Minha liberdade é composta de planos futuros, de fugas contraventoras, de rascunhos mal acabados e vacilantes.
Sou uma peça de metal frenética que insiste em levantar vôo. Mas equilibro-me como posso entre eu e os homens, entre eu e a gravidade, entre eu e meus devaneios – cumprindo fielmente meu falso papel de ser.
Quero aprender a voar até descobrir tudo que sempre me esconderam, tudo que está oculto ou submerso. Quero ver esta tal linha do equador. Não obstante, pretendo ver com meus próprios olhos onde o azul se torna preto e a treva de tão densa torna a claridade irreconhecível. Hoje, o céu está da cor dos meus olhos: cinza. De repente, a casa foi invadida por um silêncio tão grande e fúnebre que fiz dele a fonte de minhas palavras desarticuladas.
O ar está rarefeito e fragmentado: creio que está exaurido de ser e ser respirado. Um doce vazio se instaurou em mim, o efêmero vazio de estar livre de mim mesmo quando escrevo, quando entro em contato com minhas negras raízes, quando alimentos meus lobos e em troca, eles me humanizam.
O que me aliena do mundo animal, em contrapartida, é que sei que nasci para morrer e posso sim escolher quando e onde. Posso me perder para me encontrar. Posso gritar para não chorar. Posso abstrair o metafísico.
Tenho ódio. Deram-me um nome e depois de um prato de sopa quente, me vestiram uma roupa e disseram: seja.
Este êxtase por não caber na vida dos dias me faz ser todo torto e aos poucos. Mas concentro todos os meus talentos para o Gran Finalle: meu vôo? minha queda? Não. Meu grito de ave de rapina.
Não sei somar as compreensões, muito menos as incompreensões de outrém. Por isto não amo como resposta. Até hoje, vi o mundo por frestas, mas pronto estou para sair pela porta da frente - escancarando portões também. A morte não é tão irreversível: depende da epistemologia que se aplica ao conceito de morte. Tenho para mim que a morte é apenas uma vírgula, ou melhor, é apenas um erro ortográfico de alguém que não sabe reconhecer o alento que é uma simples reticências...

segunda-feira, 10 de março de 2008

O que foi feito de Vera - Elis Regina

O que foi feito, amigo, de tudo que a gente sonhou
O que foi feito da vida, o que foi feito do amor
Quisera encontrar aquele verso menino
Que escrevi há tantos anos atrás
Falo assim sem saudade, falo assim por saber
Se muito vale o já feito, mas vale o que será
Mas vale o que será
E o que foi feito é preciso conhecer para melhor
prosseguir
Falo assim sem tristeza, falo por acreditar
Que é cobrando o que fomos que nós iremos crescer
Nós iremos crescer, outros outubros virão
Outras manhãs, plenas de sol e de luz
Alertem todos alarmas que o homem que eu era
voltou
A tribo toda reunida, ração dividida ao sol
E nossa Vera Cruz, quando o descanso era luta pelo
pão
E aventura sem par
Quando o cansaço era rio e rio qualquer dava pé
E a cabeça rolava num gira-girar de amor
E até mesmo a fé não era cega nem nada
Era só nuvem no céu e raiz
Hoje essa vida só cabe na palma da minha paixão
Devera nunca se acabe, abelha fazendo o seu mel
No pranto que criei, nem vá dormir como pedra e
esquecer
O que foi feito de nós

Legião Urbana - Monte Castelo

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.
É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal.
Não sente inveja ou se envaidece.
O amor é o fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer.
Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.
É um não querer mais que bem querer.
É solitário andar por entre a gente.
É um não contentar-se de contente.
É cuidar que se ganha em se perder.
É um estar-se preso por vontade.
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrario a si é o mesmo amor.
Estou acordado e todos dormem todos dormem todos
dormem.
Agora vejo em parte. Mas então veremos face a face.
É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.
Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.

quinta-feira, 6 de março de 2008

O grito - Trecho Clarice Lispector

Mas se eu gritasse uma só vez que fosse, talvez nunca mais pudesse parar. Se eu gritasse ninguém poderia fazer mais nada por mim; enquanto, se eu nunca revelar a minha carência, ninguém se assustará comigo e me ajudarão sem saber; mas só enquanto eu não assustar ninguém por ter saído dos regulamentos. Mas se souberem, assustam-se, nós que guardamos o grito em segredo inviolável. Se eu der o grito de alarme de estar vivo, em mudez e dureza me arrastarão pois arrastam os que saem para fora do mundo possível, o ser excepcional é arrastado, o ser gritante.(...)Tudo se resumia ferozmente em nunca dar o primeiro grito - um primeiro grito desencadeia todos os outros, o primeiro grito ao nascer desencadeia uma vida. Se eu gritasse acordaria milhares de seres gritantes que começariam pelos telhados um coro de gritos e horror. Se eu gritasse desencadearia a existência - a existência de quê? A existência do mundo. Com reverência eu temia a existência do mundo para mim. (...) Eu com uma vida que finalmente não me escapa pois enfim a vejo fora de mim - eu sou minha perna, sou meus cabelos, sou o trecho de luz mais branca no reboco na parede - sou cada pedaço infernal de mim - a vida em mim é tão insistente que se me partirem - como uma largatixa, os pedaços continuarão estremecendo e se mexendo. Sou o silêncio numa parede, e a borboleta mais antiga esvoaça e me defronta: a mesma de sempre. De nascer até morrer é o que eu me chamo de humano, e nunca propriamente morrerei.

Meus sonhos - Trecho Clarice Lispector

Meus sonhos podem ser guardados em caixa de fósforos. Grandes ou pequenos, são meus. Sem receio de ser egoísta, quem sabe um dia, num momento normalíssimo do cotidiano, eu risque todos os fósforos. Eu odeio quando sou ritualístico e repito, cotidianamente, os mesmos sonhos. Odeio a espera. Prefiro o imediatismo da vida. Guardo meus sonhos em caixa de fósforos porque tenho a certeza de que irei queimá-los um dia. Tartarugas são as rainhas da frivolidade. E vivem 120 anos. São animais desprovidos de qualquer resquício de sistema límbico. São efêmeras. Andei pensando em tartarugas... São mocinhas sábias porque não sonham

quarta-feira, 5 de março de 2008

O Nome da Flor - Daniel Donson

Era uma como muitas, anônima por natureza
Costumava viver apesar de. Apesar de, acordava às 6:00,
Apesar de, cuidava dos filhos, Apesar de - respirava.
Mulher da lida, no corpo havia fadiga.
Os olhos denunciavam que ela não sabia gritar.
Mulher de Atenas, a típica Helena, que dá e nada pede,
Cobiça a liberdade na intimidade de seu leito.
Seu marido a machucava, ora com tapas, ora com socos.
Mas nada doía mais do que quando ele subia em cima dela.
Ele queria fazer o tal "negócio", logo depois dormia.
De modo que ela morria simbolicamente todos os dias.
E ele, vivia por ser charlatão, porque tirou dela seu senso.
E o senso era sua singular estado de estar-no-mundo.
Até que do âmago dela nasceu o grito.
E o grito desencadeou a fuga.
E ela se viu como quem, de súbito, entende um truque.
Achou que poderia pensar sozinha, se ninguém estivesse olhando.
Não era inteligente, não era bela. Já era velha.
Mas tinha o coração selvagem de um potro novo.
Pegou seus filhos, em tenra idade, e fugiu para a grande cidade.
Nas cozinhas de restaurante aprendeu a se suster.
Não era civilizada, mas sabia rezar. Aprendeu a se virar.
Lutou dentro da selva de pedras em que passou a morar.
Descobriu que se bastava, que tinha um começo, um meio e...
Não vivia mais apesar de - agora era plena, sentia o gosto.
Não provou do amor conjugal, mas amou ser uma vez livre.
Livre feito a borboleta branca de seu jardim.
Sim, agora ela cultivava flores.
Assim, ela deixou de ser anônima.
E quando se olhava no espelho, chamava-se por um nome.
Nome que a todos fez conhecer.
Então, já com os filhos crescidos, observou os anos idos...
As dores e dissabores.
Sentiu uma força irradiar de dentro de si - era sangue.
Eram pulsações de felicidade, de gozo. Tinha um nome e tinha filhos!
Também não era solitária porque tinha amigos.
Como estava farta de vida, logo partiu.
E como a primavera, ela se deixou cortar,
Para poder voltar ainda mais forte.
De modo que ela nunca propriamente morrerá.
Quem experimenta liberdade, não costuma morrer.
Apenas deixa de existir por sucessivos momentos brancos.
Logo emerge para conflagrar os renovos da estação.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Últimos Presságios - Daniel Donson

O sol insiste em nascer na terra dos viventes. A flama do dia é extremamente reveladora e entrecorta a escuridão da noite. Logo, o planeta balbucia como se de fato estivesse retornando da morte que está enraigada em trevas tão densas profundas que sequer é notada pelos aspirantes a ser humano. Só acordei porque o sol muito insistiu. Mas amanhecei em cólera. Sabe que estes setenta e sete anos pesa nas costas? Não, não, viver já não me agrada mais. O que me consola é que a maioria dos que estão lá fora já morreram, e ainda não sabem.
Uma vez mais incia-se a rotina frenética, jornada homicida pela sobrevivência, repleta de tarefas e preocupações, onde cordeiros comem lobos e o que predomina é ter um certo P de Predador. Meu corpo frêmito, costelas frágeis, andar vacilante, desequilibrado - o tempo. Ainda assim, tenho em mim todos os sonhos do mundo, e a força de um inferno para viver mais setenta e sete anos. Agora estou prestes a renunciar a intrepidez que a muito me aprisionou, para ser livre como todos os fracos, pobres e oprimidos deste hinóspito universo, onde o não saber, não ver, não ser é lucro incomensurável.
Foi como a gota que molha o chão, um relapso abrir e fechar de olhos, os anos passaram efusivamente. Não percebi de pronto, apenas senti pulsações. Como um expectro que precisa de uma simples afirmação de vida, procuro enxergar-me frente ao espelho, acreditar que as entradas do meu rosto e os meus cabelos brancos são sinais irrefutáveis de que estive bem aqui. Estou ouvindo Ray Charles, este é meu último cigarro. Já passa das 3:00 da manhã e sono não me pega mais. Cansei de ser refém de um arquétipo oculto onde as coisas acontecem antes mesmo de acontecer. Por isto estou cansado, por isto falo através da medula das palavras. É para poucos pulmões.
Já não faço mais parte deste pacto que me obriga a ser gênero e estar entre vivos. A desarticulação e a descompostura frente aos liames me agradam imensamente. O que ora sei - e isto é meu genuino espírito de vitória, divina esperança de quebra de grilhões - é que quero ter um filho. Entenda, uma parte de mim é célula, é carne, é sangue. A outra parte é átomo, é radiação, é explosão. O filho vai me curar a cegueira do olhar, a dor do pesar, e trará a delicada essência que perdi em algum lugar. Preciso me lembrar como é que se ama. E ser feliz é para que mesmo? Ele terá que se acostumar com meus cigarros e com a idéia de que já vivi mais dos que os não-fumantes.
Terá que aprender a se levantar sozinho, pois a mão amiga quase nunca vem. Terá que prometer nunca me decepecionar, porque quem ama exige, e exige para si. Exige o outro, e não dá de si. Terá que observar as estrelas, e não rejeitar o sol da manhã. Será a menina dos meus olhos, e lhe mostrarei a ambivalência de se viver apesar de. E apesar de me achar um louco, irá gostar de mim e me dar um abraço singelo. E quando ele não mais compreender o despropósito de ser, a espera do Deus, o deslocamento precoce, o aviltamento inevitável, esterei ao seu lado para dizer-lhe: "bem vindo! estas são as erosões provocadas pelo ato de viver". Assim como Primavera, irei cortá-lo para que ele volte sempre mais forte. Ele renascerá, irei chamá-lo Renato.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Aborto da Vida? - Daniel Donson

Falar sobre o aborto, sem cair no famoso senso comum é um desafio e tanto. Certamente, a afirmação de que a legalização do aborto é algo totalmente aceitável e necessário nos dias atuais, tendo como principal prerrogativa à diminuição da crescente taxa de natalidade, a superpopulação do planeta, e acima de tudo, a emancipação da mulher em relação as suas escolhas e planejamento familiar, é nitidamente compreensível. Também vale lembrar que o mesmo raciocínio se aplica para os casos de estupro e violência sexual.
Em contrapartida, a vertente oposta alega que nenhum indivíduo tem o direito de tirar outra vida – os mais sensacionalistas vociferam ainda que independente da circunstância e do tempo de gestação do feto, quem opta pelo aborto não passa de um homicida. Este argumento parece alcançar abrangência massiva por ser naturalmente irrefutável ante os liames mais conservadores de uma sociedade.
Há também quem faça crer que tempos modernos, onde o contato sexual passou a ser a premissa, o teste drive para analisar a adequação do corpo ao “amor” que as pessoas possam vir a sentir futuramente, exige soluções modernas e imediatas para imprevistos desta magnitude. Não sou tão arbitrário, mas também não sou liberal. Acredito que é melhor antever o ato para que ele não se transforme em fato.A discussão sobre o aborto é sim pertinente, mas completamente superficial. O problema não está propriamente no ventre de quem quer que seja, e sim, na forma de ser-no-mundo de cada indivíduo. Sou a favor da vida. Sempre! Entretanto, não posso deixar de notar que muitas pessoas estão mortas e não sabem. E, paradoxalmente, se questionam se querem ou não dar a luz cada vez que forem “iluminadas”.
Observando por qualquer viés, não concebo que alguém que não ame possa dar a luz, assim como não concebo que alguém que não ame possa ser feliz. A vida está vilipendiada, pois todas as pressões pessoais e sociais cooperam para a padronização de um comportamento, de um estilo de vida da qual sabemos que absolutamente ninguém sairá vivo.
“A verdade é que os seres humanos não têm bondade, nem fé, nem caridade, senão o necessário para aumentar o prazer do momento. Caçam em matilhas. Suas matilhas percorrem o deserto e dispersam-se, ladrando, pelos ermos. Abandonam os que tombam. Estão caiados, disfarçados”. Vigínia Woolf – Mrs. Dalloway.
Não sou pessimista ou tendencioso a este ponto, mas a “modernidade” prega a falta da tradição, e, implicitamente desvaloriza a instituição familiar. Não teríamos tantas meninas mães, tantos destroços emocionais, tanta mediocridade e tanta promiscuidade se fôssemos só um poucochinho mais caretas. Mas quem consegue conter a volúpia da juventude? Os corpos estão em constante ebulição, sedentos pelo prazer transitório e sem compromisso.
Freud já dizia que o menino é o pai do homem (no sentido existencial), e por isto, o homem de amanhã será o reflexo ou os cacos do homem que ora está em construção. Em suma, tenho para mim que a mulher não é um depósito de esperma e, ser macho e viril não é sinônimo de cruzamentos mil. Portanto, tirando os casos extraordinários, a solução ideal para resolver de vez este paradigma é fazer com que as pessoas gostem mais de si mesmas, respeitem mais seus corpos, pois somos exatamente o que aparentamos ser. Afinal, ninguém está na nossa pele para descobrir quão densas e profundas são nossas raízes.

É a Carne Negra - Daniel Donson


Sabemos que a pluralidade é a lei da terra. Ouve-se por aí que todos nós somos iguais, e não há motivos para se ter ‘pré-conceitos’ para com outros serem humanos, especialmente com os negros. Que bonitinho! E foram felizes para sempre. Ainda bem que nos resta certa utopia sobre nossa existência, pois alivia momentaneamente o fardo pesado das injustiças que nos são acometidas das mais diversas formas no decorrer da vida. Que ninguém me leve a mal. Estou tentando ser simples, casual e levemente risonho mesmo não escrevendo sobre o arco-íris e sua luz iridescente, posto que este existe e permanecerá existindo independente das palavras.
O que precisa ser mudado, precisa ser também exposto. Antes o sofrimento legítimo do que o prazer forçado. O que estou tentando articular é que as coisas não estão tão boas assim. Embora a apartheid tenha acabado, reside em nós, negros, grande insatisfação e vou tentar contar o porquê. Começamos pelo nome. Por que a palavra negro é sinônimo de coisa ruim? Veja bem, temos a Peste Negra, a Magia Negra, O lado Negro… Enfim, este adjetivo está intrinsecamente ligado a algo ruim, medonho. Trata-se de uma opinião pessoal: prefiro o adjetivo preto, porque este ainda está livre de associações e é minha cor favorita. Ontem eu estava indo ao Centro Cultural de minha cidade, afim de devolver uns livros e inevitavelmente passo por um bairro de classe média-alta. Aquelas casas valem no mínimo cem mil reais e elas sempre têm dois carros na garagem.
Uma bela mulher de uns trinta anos abriu o portão eletrônico de sua mega-residência para colocar seu carro na garagem; devia estar em horário de almoço. Coincidentemente, eu passava pela sua calçada, cantando na paz. Ela falava no celular e não entrou de pronto. Quando eu estava preste a passar por debaixo de seu portão, a mulher deu uma arrancada com tudo. Então eu disse: “Sua bruxa, não vou te roubar!”. Acho que ela não ouviu, mas quase me atropelou. Acho que ela imaginou que eu iria roubá-la, depois estuprá-la e deixá-la sem carro e sem seus preciosos bens. Sou obrigado a concordar com Nelson Rodrigues: “Hoje em dia é muito difícil ser honesto. Todas as pressões cooperam para nosso aviltamento pessoal e coletivo”.Eu nem usava roupas de mano, não estava que nem um “ligera”, mas mesmo assim, o que fez com que ela pensasse que eu entraria? Os três P´s: Preto = Pobre = Peão. Acho importante compreender ambas as partes. Tentei estabelecer alguma comunicação com a mulher, mas sem êxito infelizmente. Como sempre a pessoa se esconde atrás dos seus altos muros, fortaleza segura. “Às vezes podemos tratar os outros como pessoas e só receber coices, traições e abusos. Concordo. Mas pelo menos contamos com o respeito de uma pessoa, nem que seja apenas uma: nós mesmos. Não transformando os outros em coisas, defendemos pelo menos nosso direto de não ser coisa para os outros” (Fernando Savater, Ética para meu filho).
Inquestionavelmente, tenho livre arbítrio. Eu poderia ser exatamente a imagem que a sociedade pinta que sou. Você pensa que eu não tive acesso ao tráfico? Vamos à minha vila, vou te mostrar. Mas eu seria apenas another brink in the wall. Temos poucas armas para lutar contra o preconceito, e para ajudar grande parte de nossos irmãos correspondem às más expectativas, o que faz com que nossas respostas amigáveis não tenham a menor expressão, sendo apenas vociferadas através da violência. O bom do universo é que algumas existem com uma precisão absoluta. Hora ou outra vemo-nos sem defesa frente a nossa própria verdade.
“… de repente a máscara de guerra da vida crestava-se toda como lama seca, e os pedaços irregulares caíam no chão como um ruído oco. E eis rosto agora nu, maduro, sensível quando já não era mais para ser. E o rosto de máscara crestada chorava em silêncio para não morrer”. (Uma aprendizagem – Clarice Lispector)
Quem não é negro, não sabe o que é ser negro. Na escola, no trabalho, na igreja. Se não nos isolarmos em nossas próprias comunidades, cultura, música e amigos como viveremos, pois? Não temos nenhuma afinidade com outra classe, somos ligados em nós mesmos. Somos nossa própria ligação com o mundo. “… Já eu não tenho classe social: A classe alta me acha um monstro, a média morre de medo que possa desequilibrá-la e a baixa nunca vem a mim”. “Todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro - existe a quem falte o delicado essencial”. (A hora da estrela – Clarice Lispector)
Sou absolutamente a favor das diferenças. Um mundo igual, de pessoas iguais – coitado dos arianos – com as mesmas praças, as mesmas flores, o mesmo jardim, deve ser tremendamente insuportável. Porque o delicado essencial não estaria presente. E o delicado essencial consiste em saber que respiramos num mesmo corpo, composto por membros de funções heterogêneas, mas indispensáveis. A raça negra jamais permaneceu intacta no meio das erosões provocadas pelo ato de viver. Isto apenas fortalece minha tese de que se não houver compreensão, tolerância e comunicação, logo, não haverá vida, nem o delicado, nem o abrupto essencial que é a tênue linha que nos distingue dos vegetais. Respiramos como eles, mas não somos apenas matéria orgânica que um dia adubará o solo.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Leitura Íntima - Daniel Donson

Dezembro. Mês de nascimentos e renascimentos, momento de fazer um balanço geral, retrospectiva de mais um ano que se passa. E se a longevidade da vida é pautada numa seqüência indeterminada de anos, dezembro é o mês de um avivamento maior, sublime aspiração de um futuro que certamente chegará depois das onze horas do dia trinta e um.
Mas nenhuma data traz mais esperança do que o dia vinte e cinco. É bem verdade que no fundo da alma, todo mundo é um pouco triste e um pouco só. Entretanto, a esperança implacável implícita neste dia, nos faz transcender os sentidos físicos, limitações emocionais e enxergar algo além: o imaterial, o intangível – o sonho.
“Margarida a Violeta conhecia. Uma era cega e a outra bem louca vivia. A cega entendia o que a doida dizia. E acabou vendo o que ninguém mais via”. (Perto do Coração Selvagem – Clarice Lispector)
Compreensão, aproximação, união... São palavras intrínsecas a esta época do ano. Através de Margarida e Violeta é possível sentir de forma sutil que vale a pena permanecer de peito aberto independente das adversidades. Em detrimento da pluralidade das tradições religiosas multifacetadas, que estão mais em decadência do que nunca devido à ideologia massificada de consumo, devemos sim acreditar em Cristo – o Alfa, o Omega, o Messias – dar-lhe os parabéns – porque ele vive – e reconhecer nele a abundância colossal de um de um sentimento tão simples, tão solícito, tão altruísta e delicadamente essencial: O amor.
A legitimidade e necessidade de se amar é incontestável, embora haja certa carência de amor na Terra. Nenhum sofisma, ceticismo ou niilismo é capaz de refutar os benefícios adquiridos por aqueles que não desistem de amar. Refiro-me ao amor ágape, incondicional e desinteressado. Aquele que não se ufana, não se inflama de ciúmes, não se porta inconvenientemente, nem trata com leviandade. O outro amor é perecível e nocivo, pois de repente transforma-se em ódio por qualquer circunstância exterior. O verdadeiro amor não se apaga, não se torna obsoleto e é a raiz secreta da felicidade, da busca de... Sim, da busca de.
Especialmente no natal, todos parecem despender um pouco mais de amor do cofre e não se sente a poluição do ar como de costume. Suponho que seja pelo fato de que as coisas que realmente nos asfixiam e contaminam não estão do lado de fora, estão no recôndito do coração, nas avenidas ocultas dos que tem vida interior ativa.
Somente nesta ocasião somos tão induzidos a prestar atenção no nosso próprio reflexo, a nos observar como se estivéssemos em outra pele, a mergulhar no introspectivo para procurar subjetivamente razões objetivas para se viver e viver.
Encontrar o equilíbrio desejado e decidir ser feliz aqui e agora, não abandonado por completo a doce ilusão de que a plenitude está escondida no futuro, no amanhã – o pote no final do arco-íris.
Por tudo no universo ser uma grande verdade inventada, é fundamental permanecermos crendo no tudo e otimizando a todos. Chega de dizer. Está quase na hora da língua descansar. Hora de sentar, pensar e silenciar. O silêncio que é a oração dos sábios, sempre fala muito mais. O silêncio que é sempre uma conversa consigo próprio, um diálogo construtivo entre os muitos entes que nos compõe, uma autêntica leitura íntima.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Encontro Marcado - D. Donson


Entôo um novo cântico, uma nova canção que esteve muito tempo ausente dos meus lábios. O amor está presente, como sempre. Não saberia descrever com exatidão o tipo de amor que estou me referindo. Apenas sinto que o amor é um dom que não se apaga, não se ufana, não trata com leviandade, não se infla com a inveja, não se ensoberbece, não é inconveniente. Um sublime e incorruptível dom. Algo que ultrapassa inclusive a palavra, posto que há carência de palavras inventadas que o descrevam com exatidão, com exímia exatidão.
Meu maior conflito é travado entre meu osso e minha medula, indo até o interior de meu coração e depois nas fortalezas de minha mente plangente. Apenas sei que meu labor consiste em pensar, em questionar-me e estas veleidades transformam-se nas muitas perguntas que ninguém até hoje ousou responder. Entretanto, não irei mais complicar aquilo que é demasiadamente simples. As coisas que já aprendi. Renato já disse que são as pequenas coisas que valem mais. Estou acreditando em mim novamente, me darei outra chance. Por que as pequenas coisas para mim, já são acessíveis e, o resto é pura efemeridade. Esta medíocre busca adicional que culminará em outras perguntas e estas, certamente me matariam – literalmente.
Vou tirar esta caiada do rosto, verei claramente novamente e aquilo que agora está oculto, se manifestará para glorificação de um plano mais elevado. Sei bem que aqueles que lêem minhas palavras confusas – se é que existe interlocutor, pois faço disto uma conversa totalmente impessoal e restrita entre meu ente mental, um psicanalista nato, provido de um intelecto racional e material e meu ente emocional, um coração metafísico que não desiste de achar o caminho certo e desconsiderar os aspectos niilistas da vida – certamente acreditam que a razão leva a compreensão de todas as coisas. Bobagem! Tais verdades são como as ondas do mar, que são reféns do vento e são levadas cativas aonde quer que ele vá.
Busco algo maior. Busco estar perto do coração selvagem da vida, porque concordo com a Clarice, liberdade para mim é pouco. E não terei medo de homilias atípicas que usarei para dublar o que está sendo traduzido em mim. Outra forma de ter é desejar de todo o coração e também crer que o silêncio que naturalmente trazemos dentro de nós, não é a resposta ao nosso mistério e sim, a projeção da pergunta que cedo ou tarde será respondida. Guardo em mim o grito de um mundo inteiro. E não é fácil segurar a verdade do mundo dentro de mim. Sim, à Clarice. Concordo com o fato de que todo ser humano é um pouco triste e um pouco só. E a admiro por falar sobre nossos lobos tão abertamente, claro que utilizando o subterfúgio dos seus personagens, mas quem não usa de personas para encarar a vida?
Mas um dia, um belo dia, acontece isto a toda criatura: "(...) De repente a máscara de guerra da vida crestava-se toda como lama seca, e os pedaços irregulares caíam no chão como um ruído oco. E eis rosto agora nu, maduro, sensível quando já não era mais para ser. E o rosto de máscara crestada chorava em silêncio para não morrer". (Uma Aprendizagem)
Simplesmente, após isto ter me ocorrido, não sinto falta da minha máscara. Sinto-me vivo, intrépido, revigorado, como vinho novo, sabe? Isto se deve ao fato de eu ter inclinado os meus ouvidos para ouvir o que naturalmente não consigo. Abri os olhos do meu coração para enxergar o que o físico se recusa a me mostrar. Como a Violeta e a Margarida:
“Margarida a Violeta conhecia, uma era cega a outra bem louca vivia, a cega entendia o que a louca dizia, e acabou vendo o que ninguém mais via." Compreendeu?
Estou em constante sinergia com este verso: “... Todos nós somos um (unidade) e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro - existe a quem falte o delicado essencial”. (A hora da estrela)
E se há algo que eu possa fazer por mim, é não perder meu delicado essencial. Não quero ter o mesmo fim que o Cidadão Kane, e observar que após uma vida inteira tratando as pessoas como coisas e obtendo lucro através disto, depara-se com a face sombria e irreversível da morte, constatando que o único momento de genuína felicidade foi quando sua mãe lhe empurrava no velotrol – a infância que guarda a fantasia do perfeito. Ele perdeu seu delicado essencial. Tratarei de ser exatamente como o que sou. Não viver na linha do arbitrário, do estóico e inflexível.
Mas dançando no escuro, sem medo de cair, confiando na força maior que não posso ver, apenas abstrair. Dançarei sob o sol da meia-noite, em saltos sincronizados, herméticos e meticulosos para desarticular a escuridão e inventar uma nova relação com o tempo. Sei estou meio cansado, não posso negar. Contudo, não me permitirei escolher novas máscaras. Sei que este é o primeiro ato voluntário e solitário do homem, mas quero me habituar a olhar no espelho e além de me reconhecer, quero acreditar na minha limitação, na delineação da minha figura e me dispensar um sorriso sincero, alvo, reconciliatório até. Pagarei o preço, transportarei os montes com expressão iridescente. Já ouço as vozes sibilantes que me motivam e encorajam a prosseguir, em detrimento de todo obstáculo. E de qualquer luta ou descanso, me levantarei forte e belo como um cavalo novo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

A Hora do astro - D. Donson

Engraçado pensar na insignificância e obsolescência do tempo. O tempo, que pacientemente conta seus segundos e parece estar sempre a espreita aguardando para marcar a hora H de todas as coisas. Ironia maior é saber que um segundo isolado é a tênue diferença entre a vida e a morte, entre a lucidez e o último fio de pensamento daquele que inspira e expira o que outrora foi o sopro da vida.
E foi numa destas muitas noites mórbidas, frígidas e soturnas que o relógio marcou o exato momento da despedida de um dos meus. O círculo peculiar de pessoas que naturalmente nos cercam – querendo ou não, a pluralidade é a lei da terra – o círculo começou a andar. Sim, digo círculo peculiar porque este é meio quadrado, entende? Na verdade ele é mutante, sem forma fixa, sem identidade definida. As cortadeiras, como de praxe, não tardaram a chegar com seus sacos de lágrimas na mão para iniciar sua verossímil missão: chorar.
Resisti ao máximo para não exteriorizar o breu e a neblina que de súbito observei dentro de mim. Saiba que não tenho medo dos fortes ventanias, nem das tempestades aterradoras, porque eu também sou a escuridão da noite. O que de fato me intriga e me incomoda até a medula, é o barulho uníssono das vozes insólitas e dissolutas que permeavam o ambiente.
Eles jamais poderiam imaginar que uma forma infalível de se ter, é não desejar, e apenas acreditar que o silêncio contido naquele caixão é a resposta ao grande mistério da vida. Seria surpreendente se todos descobrissem que não há nada a ser descoberto. O que é factível é somente o que os nossos olhos podem alcançar. Deve ser um ultraje ou um apelo a vaidade intelectual do homem crer que todas as coisas são exatamente o que elas aparentam ser e que a morte nada mais é do que a cobrança dos juros do efêmero contrato que assinamos quando resolvemos por a cara neste mundo.
Compreendo que a dor da saudade deva ser latente nos pobres corações – o que não concebo é o porque tanta estima, tanto esmero não é expresso enquanto ainda respira o falecido.
Nas tardes vazias, no ócio da palavra amiga que constitui a amarga solidão, onde estavam estes que agora lhe tocam a mão?
Nos natais triviais, no inevitável dia dos pais, onde estava seu círculo quadrado que agora exige mais e mais?
Da minha poltrona confortável eu tinha uma visão panorâmica e privilegiada. Cada olhar furtivo, cada gesto meticulosamente premeditado, cada palavra afável e ao mesmo tempo contrabandeada, tirada do intransferível acervo pessoal daqueles que amam em secreto.
De que ainda aplaudir o artista quando este já está fora de cena? De que adianta dar a ele mil rosas roubadas em prova de sua importância, quando este já foi habitar nos campos santos?
Porque não reconhecer a luz de um astro quando ele ainda existe e seu brilho ainda se espalha? Já não há mais poesia e nem prosa que possa refletir com exímia perfeição a luz que agora se apagou. E como diria Clarice: “quem não é um acaso na vida?”.
Quanto a mim? Fiquei oco, plácido e impassível. Com um sabor nostálgico na boca do que poderia ter sido e não foi. Fiquei ali, querendo dar arrivederte e ao mesmo tempo segurando a explosão. Acho que foi a rica paz que invadiu minhas fortalezas, e efusivamente evitou a guerra.
Expressei-me através da inexpressividade, meu silêncio falou bem mais.
Não posso esquecer que também faço parte deste círculo meio quadrado e vicioso.
Sim.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Enganei o bobo - D. Donson

Enganei o bobo e o bobo sou...eu. Se tivesse percebido a grande tolice que é permanecer de peito aberto, teria feito uma cirurgia para doar meu coração a um desgraçado qualquer, meu velho coração jovial, que acha que ainda está em forma e em plena atividade, esqueci de avisá-lo da minha inóspita morbidez. Hoje não vou falar de amor, quero abrir rapidamente a caixinha onde guardo os meus lobos e mostrar em poucas palavras a que vim.
Meu sobrenome é, e permanecerá sendo intensidade. Nasci assim: inflamável. Portanto, se meu doce jeito de ser não lhe agrada, sei fazer pirofagias, cuspo fogo e mando você para o lugar que você mais gosta de estar, compreende? F....-se!
Não preciso de metáforas para te resumir: uma bela criatura que anda errante, nômade inconstante que não se fixa em canto algum e vive sempre querendo voltar atrás. Um olhar tão singelo, tão amável que por um momento me lembrou a inocência que a tanto já perdi. Sinto sua falta, linda.
Tenho a mesma durabilidade que o fogo. Enquanto o vento sopra, estou em combustão. Cessou-se o vento, logo, deixo de existir. Fui forjado no fogo, como uma arma de guerra apta para toda e qualquer batalha. Estou sempre de olhos bem abertos, buscando loucamente uma visão mais ampla e mais fidedigna com a realidade que gosto de construir. E qual problema? Se não gosto de alguma coisa, tenho o direito de ao menos concebê-la de uma outra maneira para mim. Estou aprendendo a brincar de bola, sem bola, porque odeio futebol! Que todos aqueles idiotas quebrem suas canelas, porque as minhas já vieram quebradas.
Depois me chamam de louco: vê se sou eu quem paga milhões para um (sem adjetivo) ficar correndo atrás de um objeto redondo que passa daqui para lá e de lá para cá. Que as minhas pragas fiquem só no papel, não quero ter os estádios contra mim. Eles provavelmente nunca me lerão, mas estou disposto a me desculpar, sem partir para a força bruta, é claro. Esta que também não é meu forte.
Estou de mau humor, me perdoe paciente leitor – se agüentou meu pragmático desabafo até aqui, você merece um beijo na boca que certamente não darei porque nem me olhei no espelho e nem escovei os dentes, acabei de despertar para fumar um cigarro e este não é meu único vício nestas madrugadas soturnas.
Fatalmente, tudo é “por enquanto” e, nada é “para sempre”. Por que isto tem que ter sempre uma conotação sentimental? Nada do que está escrito aqui precisei sentir para escrever. Apenas imaginei que sinto, assim como imaginei que te amava. É assim que eu funciono: Um espelho fiel que te reflete, e por causa disso te incomoda. Eu queria ser bonzinho, queria ser um diminutivo pacato e risonho, até mesmo vilipendiado. Não sirvo. A minha existência começa por mim, estende-se até...chegar em mim novamente.
Gostaria de dividir-me em dois, como não posso quero dividir minha falta de criatividade, minha viral ansiedade, minha múltipla personalidade, meu eu massificado e multifacetado com você. Para tanto, preciso minimante de um sorriso seu. Daqui a pouco o relógio marcará 5:00 horas e precisarei levantar. Mas estarei contanto as horas, no intuito de... mudar meu sobrenome para um outro que você possa compreender e pronunciar com mais facilidade. Não quero me fingir de bobo, pois, no fundo no fundo eu sou mesmo, também faz parte da minha enigmática natureza.

Dia de Introspecção - D. Donson

Hoje, parei um instante,
Quis me dar uma chance para desabafar.
Porque tudo é tão inconstante
E de uma hora para outra tudo pode mudar?

Hoje, segurei-me um segundo,
Não quis mergulhar mais fundo neste mar de ilusão.
Por que, se tão belo é o mundo,
Não concorda comigo, não me dá a razão?

Bem sei que até hoje nada sou.
Também sei que de tudo, mais peço do que dou.
Porém, se alguém me quer bem,
Apenas creia em meus sonhos, não são coisas do além.

Se por fim, como neste prelúdio,
O verbo ou o gerúndio não tiver ocorrido,
Quem sou eu afinal? Como o lírio do campo,
Dilacerado pelas daninhas? Antes tivesse eu nunca nascido.

Ainda me resta o amanhã, e quem sabe o que há de ser?
Somente desejo copiosamente aprender a viver.
Assimilarei as regras do jogo, construirei meu próprio palco.
Farei do medo, um salto.
Das chances, a cena.
E finalmente, sei que tudo valerá a pena.