segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Respirar o mundo, inspirar a vida - D. Donson
terça-feira, 31 de julho de 2012
Uma carioca em São Paulo - D. Donson

É inexplicável o modo como São Paulo não se dá facilmente a uma pessoa. Basta andar por uma rua movimentada para notar, em rápido relance, que justamente aalienação de seus habitantes é o que sedimenta e alicerça as estruturas subterrâneas dessa megacidade.
Mas afinal, quem começou São Paulo? A própria Esperança. Esperança multifacetada, de rostos agrestes, peles tecnicolors, sonhos despedaçados e, insistentemente, reconstruídos, customizados e reinventados. São Paulo ganha é na persistência. Na persistência é que se ganha São Paulo.
Num desses domingos de ressaca vegetativa, domingos em que, subversivas, as pessoas decidem ir ao parque com os filhos para esquecer por alguns instantes a luta inerente da semana que se inicia, de congestionamentos, do metrô sufocante, da chuva sem guarda-chuva, do homem pedindo moeda, da mediocridade de todos nós que se compraz ao pensar que ‘eu-não-tenho-nada-a-ver-com-isso’, pois foi num desses domingos de lívida distração do cotidiano que conheci uma carioca recém-chegada à metrópole.
Não, não era somente pela beleza, porque havia outras mais bonitas que ela. Também não eram seus bons dentes, a pele porcelanada, os cabelos lisos e soltinhos. Ela tinha dentro de si o lobo dos grandes homens, a ambição e obstinação necessária para vencer a cidade (não na cidade), para escalar os altos muros de que uma São Paulo é feita.
Percebi, com ligeira surpresa que fizeram meus olhos sorrirem, que a altivez da carioca Lala, de 159 centímetros, a levaria muito longe – aonde quisesse. Além de bonita, era esperta como um menino de rua, articulada nas palavras, ela era uma forte. E os fortes são vítimas deliberadas de uma cidade que consome força e talento como São Paulo. Quase autômatos, esses fortes são rapidamente uniformizados e transformados em legítimos paulistas, pouco importa a origem ou a classe.
Entretanto, quem se torna um paulista – e Lala rapidamente o compreendeu – quem se torna um paulista deve aceitar os termos dacidadania, uma concessão muito prática e funcional: só se é paulista enquanto se há força e talento. Uma vez exaurida, a carioca poderia se deleitar sendo uma recatada mineira, uma baiana animada, ou até mesmo ser, pela primeira vez em sua vida, uma carioca, com a resignação mansa e moderada dos que são do Rio.
Lala estava pronta para São Paulo que já começara por lhe oferecer um emprego de categoria numa rede hoteleira de renome. Em outra meia palavra de nossa conversa, que começou quando quase a atropelei de patins, fotografei o relance que me fez entender que ela era o tipo de mulher que jamais seria usada sem que o preço pago fosse o suficiente para a manutenção da sua liberdade de pessoa que jamais dependeria de outras para viver.
Ela era toda sozinha no mundo, com aquela liberdade que muitas vezes aprisiona por não sabermos usar. A carioca de riso fácil perdera os pais muito cedo e tinha duas irmãs as quais a indiferença fez abortar o amor e o laço familiar mal constituído.
--- Como você está se mantendo em São Paulo ?
----Tenho meus colaboradores. Os homens são muito estúpidos e só pensam naquilo. Eu sei que não posso ser prostituta, já que não consigo sair com alguém sem atração. Mas os que me atraem terão que, de um jeito delicado ou não, colaborar comigo. E ainda pensar que sou uma garota de virtudes.
Percebi que se tratada de uma sobrevivente, ela havia sobrevivido à própria vida. Uma forma interessantíssima de sobreviver é deixar os dias escoarem como água pelo ralo, assim, distraidamente, até que o tempo passe, até que as árvores envelheçam, até que pintem os muros da cidade, até que você se torne o que sempre foi e não sabia. Assim aconteceu com esta carioca, ela tomara posse do que sempre fora dela: o direito de existir da forma que quisesse, no lugar que desejasse, com o conforto que, sim, lhe era cabido e merecido.
Naquele momento, eu sabia que não importava o que eu dissesse, ela estava fadada a sofrer todas as conquistas que uma São Paulo é capaz de oferecer a uma pessoa disposta a escalá-la, a cidade. Sofrendo as conquistas, ela se tornaria cad avez mais ávida por novos desafios, novos objetivos que, na realidade, faziam a grande roda da fortuna girar, ao preço de sua alma jovem. Vende-se a alma sem ao menos perceber, esse é o preço real dos que trabalham por si e não para si.
Quando lhe pergunto se ela sente falta da família e dos amigos, ela olha para o café como quem procura lembrar-se de algo. De súbito, uma séria expressão em seu rosto deu forma à resposta que ela criara instantaneamente para si mesma e para mim: às vezes parece que sinto falta de alguma coisa que perdi. Mas uma coisa que perdi e agora já não preciso mais. O meu negócio hoje é viver.
Com o café já frio, ficamos sentados em um silêncio tão remoto que nenhum barulho das crianças ao redor poderia quebrar. O nosso silêncio era uma estátua de gesso ou sal, jamais tocada, apenas vista. Como o silêncio da noite da cidade que agora ela passara a habitar, o silêncio que agora a abraçava como uma mãe embala seu filho nos braços. Ambos de nós éramos anônimos, cada um com uma renúncia, uma queda e uma fortaleza construída com as próprias mãos, com pedras atiradas pela vida. E nessa fortaleza fomos habitar sozinhos, eretos, impassíveis.
São Pauloé tal qual a fortaleza que muitas vezes temos que criar para, nela, com falsa segurança, irmos habitar. Nessa cidade de sol tímido, pessoas anônimas se encontram nos elevadores e supermercados para, no instante seguinte, voltaremao desconhecimento. Muitas vezes os olhares se entrecruzam pela janela de um condomínio, mas, assustadas, as pessoas fecham suas cortinas, como se o perigo fosse o outro. Trata-se do conforto da impessoalidade, de uma fortaleza construída à imagem e semelhança do que precisamos para dormir em paz, para cuidar de uma pessoa muito especial e frágil: nós mesmos.
Saindo do parque, com o rosto suado e a boca seca, a luz do sol daquela tarde de domingo começara a me queimar como uma danação, como um deserto sem horizonte. Eu sabia que estava conectado com aquela carioca. Talvez todos nós, paradoxalmente,estávamos unidos: nós estávamos só. E quem sabe não era esse o caminho da salvação: saber que se está sozinho, precisar do outro, do semelhante, do amor sublime de quem estende uma mão.
Confuso, entrei no ônibus sem olhar para trás, de alguma forma querendo fingir que não vi tão claramente o quanto nós dois estávamos precisados de um abraço gratuito, como o que demos na hora da despedida. Nós éramos estranhos no ninho, em São Paulo , no Brasil, no mundo. E viver a glória íntima de ter sobrevivido e vencido era um galardão que só esta cidade poderia dar. Dentro de mim, com a sofreguidão dos que acolhem o outro para se sentirem acolhido, inocentei a carioca de todas as trapaças que ela confidenciou naquela tarde, todos os riscos que correra e tudo o que fizerapara estar ali.
O meu negócio também era viver. E para mim não havia dúvidas de que ela era, sim, uma garota de virtudes.
domingo, 24 de junho de 2012
Viver sem tempos mortos
Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar.
Portanto, ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa pra minha liberdade hoje? Não sou escrava dele.
O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, unicamente o sabor da minha vida. Acho que eu consegui fazê-lo; vivi num mundo de homens guardando em mim o melhor da minha feminilidade.
Trecho da Peça VIVER SEM TEMPOS MORTOS, inspirada na correspondência de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, com Fernanda Montenegro.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Noite espontânea e o crescimento das plantas - D. Donson
Da minha mente tiro o sonho
De que o mundo é puro amor
Do desejo eu vejo o espelho
Do que fui, do que eu sou
A fumaça me faz ver
Todo o ódio que restou
Noitezinha, noitezinha, não se renda para a luz
O teu brilho mais eterno
O próprio escuro é quem conduz
Amanha o dia é de sóbrios
E aos loucos perseguirão
Quem sabe o pouco da verdade
Cria o próprio Deus no coração
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Destino - D. Donson
Chega
a ser uma mutação: meu mundo cai várias vezes e eu me adapto
rapidamente aos novos sentimentos. No instante seguinte, sou obrigado a
esquecer o que eu sentia, fingir que não existe, até que não existe
mais.
Será esse o meu destino: viver de glória em glória e de
realidade em realidade. Sem nunca encontrar o meu centro, resignação e
novo amanhecer. Desertos e dilúvios, amor e desencanto. Violento e fugaz,
eu amo tudo de uma vez, guardo sempre um pouco mais.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Impressões do mundo gay (!?) - D. Donson

Fico impressionado com a superficilidade de alguns faggies.Especialmente os bonitos num primeiro momento (!?). Ficam tão deslumbrados com o pseudo-mundo de "coisas". Não que as "coisas" não sejam boas e importantes, mas elas não são suficientes.
domingo, 15 de abril de 2012
As primeiras dores do amor livre - D. Donson

Deveria haver uma forma de amar sem doer. Amar dói muito, tira o sono, queima-se em febre e em ansiedade. A vontade de unir-se completamente ao outro ser, para sempre, oh, para sempre.
A dor já começa por saber que o "para sempre" não vai exister. A garantia e o dever é o de viver uma vida inteira a cada dia que se nos dá ao lado da pessoa que amamos. E que sequer sabemos porque amamos.
Sabe-se os olhos faiscantes, a vontade de não desagradar, o desejo secreto de oferecer o melhor, de ser espontâneo, de atravessar os becos mais escuros e os vales mais derradeiros só para no fim dizer: puxa, veja pelo que "passamos"! E essa vontade de pronunciar a terceira pessoa do plural é um sinal inequívoco de que tudo está perdido, você está rendido à alegria angustiante do amor.
O "nós" é o golpe último na racionalidade, é quanto realmente começa a doer. Mas não tenho medo da dor, pois nela não sofro. E se meu amor, hora ou outra, com ou sem prévia explicação, não for correspondido, desligo o botão. Sim, dói ainda mais, é algo terrível como um soco no estômago - mas necessário.
Vou até onde o teu olho faiscante me acompanhar. Por que olhos tão brutais e selvagens? Por que essa expressão inumana? acho que você é um ser de outra época, acho que você tem em si o mistério da origem do homem, sua força me assusta e me seduz. Você a desconhece. Essa força, sim, eu amo essa força que vem de você e, às vezes, me é dada.
Breves. Tão breves são os momentos de liberdade solta, nua, inefável. Quando estou com você sinto a possível liberdade, sinto sua aproximação. Eu amo a liberdade sem nome que você possui, aprenderei a ser livre como você, talvez junto com você, até que o vento nos separe. Até que o vento nos separe. Até que um de nós voe. Ou os dois.
domingo, 8 de abril de 2012
Glória íntima - D. Donson

Como explico que tive hoje, finalmente, um dia feliz? Como explico, sem uma palavra que me contradiga, que tive o dia mais feliz da minha vida? Que estranha sensação de egoísmo por ter tido o mundo inteiro de uma pessoa. Não é egoísmo porque também compartilhei o meu inteiro mundo. Mas é uma alegria que entorpece assim como a plenitude e a eternidade também entorpecem. Quer-se completamente mais. Quer-se falar em "sempre". Mas não posso usar o "sempre". Erramos dando um nome, temos que viver essa glória íntima segundo a segundo e anonimamente.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
O instinto de liberação - D. Donson
Queria tanto encontrar um meio de enlouquecer. Preciso muito dar um destino para minha loucura guardada. sexta-feira, 23 de março de 2012
Alegria, a rosa rara - D. Donson
terça-feira, 13 de março de 2012
No light, no light - D. Donson

Perdi o texto. Não bastassem todos os pensamentos que estouram como bolhas de sabão na parede de minha mente, esqueci-me de salvar meu último texto. Isso é sintoma de que não acredito na interferência do que escrevo. Não muda nada. Então por que continuar a ver na palavra a solução última para um mundo todo em si incognoscível , misterioso e cheio de silenciosas eras a subirem por minha alma adentro, alma cada vez mais cansada, oh Deus, cada vez mais cansada?
Eu olho no espelho e o que vejo é a sombra do que fui um dia. Mas as pupilas são as mesmas e conservei a obstinação no olhar, obstinação de quem está prestes a atacar o outro, o animal feroz, o ser excepcional escondido e amarrado para não ferir. Pelo que vejo não aprendi as lições básicas, nem amar eu sabia. Nem amar eu sabia. E tampouco fiz do meu futuro um caminho percorrível por qualquer outro além de mim. Caminho sozinho, com a suave medida da solidão. Uma solidão moderada e totalmente adaptável como a minha própria sombra.
E quantas não foram poucas as vezes que pensei em desistir. O ímpito de continuar. O ímpito de continuar em detrimento de qualquer coisa, em detrimento do amor, do amor e sua tragédia, do amor e seu fiel escudeiro, o ódio!
Ah, Deus, perdoe essa incompreensão de mim mesmo, perdoe eu não querer por um instante a humanidade que me foi dada, perdoe essa minha voz embrutecida de quem não conhece nada senão o grito, o baixo grosso da dor. É porque há a esperança, mas ela não se manifesta para os pobres de espírito como eu. E há a vida, há o amor, há a paz. Paz? Eu que sempre rezei tanto. Não, não tive a minha medida de paz.
Mas não vou morrer sem ser um pouco feliz, sem experimentar de tudo, até o inferno e seus demônios. E não corrigirei uma sílaba da minha oração, por três vezes perdi meu texto, que inferno é esse? Pois que fique este vômito irracional espalhado por esta parede sonsa e obscura de sentidos e que me perdoe também os que estiveram em novidade de espírito. Era somente isso que eu queria. Era somente isso que eu queria.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Rezar para dormir - D. Donson

Como poderia eu, que nunca fui ao analista, me libertar do que eu fui no instante passado e de repente agora percebo que não o sou mais? Bem mais do que isso: não quero ser uma dessas vidas que caminham a esmo sobre a Terra sem nunca se questionar o porque se deve continuar a caminhar. Paro agora para um café, é bem noite e aceitei que terei insônia.
Voltei. Talvez aceitar a minha insônia seja uma forma bem secreta de esperar que o sono venha por si só. Enquanto acordado, penso em palavras. Penso em palavras o tempo todo, no entanto, a palavra correta não me ocorre. A palavra para o que eu sou simplesmente está escondida em algum deserto remoto da minha existência passada ou atual, e é um calvário até o seu encontro. Morro bem mais do que uma vez, morro e renasço concomitantemente.
Tento voltar mais pronto, tento voltar a ter a expressão genuína do meu melhor modo de ser, da minha ânsia por uma novidade de espírito, da descoberta fatídica de que só tenho uma chance, da sabedoria quase sublime de que jamais amarei alguém da forma como amo esse ser que de relance cruzou meu caminho e, de relance novamente, soube que era o meu desafio, era a extensão da minha experiência romântica. Por isso, mudamente, tenho feito orações. Acredito que o silêncio também seja uma voz poderosa, a voz de Deus. E ouvir esse silêncio talvez me leve à compreensão de mim mesmo, desse amor que sinto e muitas vezes me arranha por dentro.
Quem sabe toda vida não esteja mesmo precisando de uma boa dose de silêncio para ouvir o que, na insanidade cotidiana de carros, cavalos e trombones, passa desapercebido. O essencial é um relance só visível ao olho apto a ver a vida que acontece nas minúncias, no orgânico da natureza. E faço disso tudo a minha oração mais primitiva, o meu ritual de catarse, de purificação. Que a palavra traga à existência aquilo que não existe, dentro e fora de mim. Que tudo se esclareça se na loucura obstinada de ser quem eu sou eu resolver sentar um pouco para pensar e sobriamente desistir de ser quem eu era, rumo sempre ao encontro do meu melhor modo de ser.
Peço a quem me lê que me ajude neste caminho. Peço à palavra que me expresse, sem receio de ser lido só pelos que riem de mim, pois esses que me enxovalham são os que mais estão em estado de urgência: eles não vomitam a própria alma para o outro, jamais estarão vulneráveis, jamais se darão sem medo da dor, jamais sentirão esta gratidão ao ser humano ou ao universo por ter sido empurrado para dar um passo adiante.
Oras, à mim, sem religião que me identifique, resta rezar como aprendi. Rezar para este vento da madrugada que sopra na janela, balança as cortinas e esfria o café. Que vela meu sono e me dá a delimitação mais precisa de que sou uma pessoa que carece de outras. Portanto, rezo: me livre de certos abismos da trivial vida de um homem. Faça com que eu ame mais e mais quem está ao meu lado, pois quem sempre cruza um oceano para me ver é quem mais me precisa - e quem mais me importa. Que eu não seja enganado, que eu não engane ninguém. Pois no afã de enganar eu estaria sendo, deliberadamente, um monte intransponível no meu próprio caminho.
O que eu quero é a ousadia de quem se olha no espelho e dá de cara com a dignidade muda de quem não fez concessões, não se vendeu. Eu sou o meu nome, de nascer até morrer... Permita que eu me levante, pois na minha queda toda a humanidade cai também, porém se esse Amor do qual falo existe, ele me ultrapassa e me dilacera mas também me restaura e me diviniza. E só então estarei pronto para dizer "amém".
sábado, 14 de janeiro de 2012
O homem e o seu lobo - D. Donson

Abriu a porta de sua casa com o impulso autômato dos que, pela repetição de uma ato, já não percebem como estão rendidos ao hábito. No seu coração, um pequeno mundo batia, combalido, desesperançoso, mistura de cólera e cansaço. A vida se tornara mais e mais intolerável à medida que ele percebia quão difícil e inacalçável era a obrigação de ser uma "pessoa humana".
E havia tantos que como ele nunca tinham experimentado um momento de verdadeira felicidade. Não me refiro à ânsia desesperadora de quem constantemente tira a felicidade da fonte obscura do prazer. Ele desejava era o momento de tranquilo e sereno encontro consigo mesmo, estava precisado de uma felicidade mansa, aquela moderada paz que vem bem aos poucos, sem alarde ou descontrole, delicada como a brisa da manhã.
Foi mesmo nesta manhã de janeiro que ele tivera a coragem de parar para ouvir. Parar para ouvir os ecos de sua figura interior, a experiência mais assustadora e talvez mais verdadeira e ousada que uma pessoa pode ter. A casa silenciosa, os sussuros taciturnos antes ignorado agora eram encarados com a destreza de arqueiro que atira sua última flecha. O destemor acrescentava ainda mais indiferença à expressão de seus olhos. Era o estado alertivo de quem espera se defender de um ataque.
Sentia-se qual uma carta marcada no jogo da vida. A manhã começara a lhe ofender com raios de sol cada vez mais ardentes, crestando sua máscara de guerra, a máscara da noite de ontem. Foi então que, em meio tão secreta medição, sentiu fome. --- Explendor! Estava salvo. Salvo pela fome! Todos tinham fome, grande ou pequena. Comer era para ele mais que uma ação, era um rito ancestral de purificação. Assim que matava a fome, regozijáva-se com a força de líder tribal que come coração do inimigo, era forte, era intenso, era pura vida original...
A fome lhe dava direto à autotopiedade, já que até Deus disse que 'bem-aventurado são os que sentem fome'. Não era isso? E quando criança fingia não ser maduro o suficiente tentando prolongar a inocência que há muito dexeira de habitar seu espírito. Agora, após uma noite de prazer forçado, mastigada com furor e revolta, mastigava com o ódio primitivo de quem não sabe ao certo aonde é que dói. Se não era dor de fome, era qualquer outra dor em seu âmago.
Talvez fosse a dor primeira da existência de uma pessoa, dor recôndita, antiga e quase nunca questionada. Mais do que isso, era mesmo a dor da descoberta das raízes nebulosas e corruptas da natureza humana. Uma vez posto à frente de seu maior pecado, o de ser o que se era, pensou: "eu sou". Assutado, com respiração arfante, correu como pode. Ele era uma pessoa viva; era também o peso de suas escolhas, tudo tão cruel e irremediável.
Tarde demais! A vida havia lhe rasgado todo com sua lâmina da realidade. Uma vez ferido pela realidade a solução seria lutar contra ela ou ignorá-la. Escolheu não ignorá-la, mas vivê-la de forma bem distraída, sem culpa, sem medo da pergunta, encarando o seu "eu sou" com a mesma truculência de quem ousa perguntar "quem você é".
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Kuschelgeisicht R U

Dear prince,
I don´t know how to start to write about us. I guess I look so corny when the theme is love.
Babe, I would like to know english better then I could dare being poetic. But what I feel for you seems to be the landscape that once I didnt see in anywhere else in the world but in Rio, Búzios.
It was a sunny day and for the first time in a long long hard work period we could enjoy the sea and have some hours off.
That day is unforgettable because was perfect. We was gether, the bliss was in profusion and we, secretly, we knew that we were living an unrepeatable moment.
I know every month that each hour I have with you is unrepeatable and it´s the closest I got to the word "bliss". You are exactly what I found after a long gap of self-understanding.
Obviously, it is scaring. To give what you are to somebody else is not an easy or fast task. It was getting so so so intense, lover, and in those days I was restless thinking that I could lose myself, my individuality or my sense of liberty.
No, lover, when I realized that like an austrian bird very bold you could fly away my heart felt desperate and I did experiment the worse part of loving someone: the lack of the presence, the lack of love.
Babe, I just can´t live or go on without your shining presence. What I say somebody else in love must had said before but I don´t care, it´s myself singing inside in this dark rainy night.
When I said I see great things for us is because now, for the first time, I did dare to say "us".
We are so young now, babe, we come from so different worlds. But I do believe somehow life prepared our meeting in the moment that I most needed.
The way you look to me and smile to me and hug me and feel safe with me. It´s bliss. I know that it´s bliss because we scarcely can be apart from each other.
For you that did show me what "bliss" means. For you that came from lands so so far. I give you my heart and my body - with the soul inside. Every breath that I take, and every moment I am awake... I wanna keep the flame, babe, infinite... it´s vast, it´s beautiful, will last!
Ich liebe dich, mein Kuschelgeisicht!
quarta-feira, 13 de julho de 2011
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Auto-terapia - D. Donson

Bem-vindo aos próximos oito meses de sua vida! Você que corre tantos riscos e vive no limite das probabilidades. Resta agora aceitar esse acordo que você fez com o desconhecido e ir em direção ao inesperado.
Sei que quando chega a noite o seu coração acelera, sua garganta entrecorta e você fica triste e melancólico. As pessoas que verdadeiramente te amam estão sob este teto que em poucos dias você irá deixar.
Mas como não seguir esta estranha voz que diz que você tem algo a cumprir? Como não ouvir este chamado para uma experiência que irá, de alguma forma, te alargar a vida? E você sabe que pode escolher caminhar pela trilha já aberta ou usar de certa fibra para abrir caminho novo - em mata fechada.
Oras, faça o seu melhor, se torne um forte. A vida acontece para aqueles que se entregam a um grande sonho. E se você não sabe exatamente qual é o seu grande sonho, entregue-se a doçura caótica da busca.
Busca essa que leve talvez ao amadurecimento, que leve talvez às respostas que não podem ser ditas. Talvez o mundo se escandalize se você jamais desistir de se tornar alguém excepcional, bem maior do que você mesmo.
É que as pessoas têm preguiça de ser tudo o que elas poderiam vir a ser. E se ofendem quando alguém não resiste à tentação de sair para fora do cercado, do cercado da trivialidade, do cercado das coisas fáceis e do mundo possível.
No entanto, as pessoas são as paisagens mais belas que existem. E a vida de todo mundo é inacreditável e passível de se tornar um filme.
Quanto a você, continue insistindo. O que você não é está te impulsionando para frente. O que você não é está te ensinando, pouco a pouco, uma grande lição. Está te aproximando do Grande Sentido.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
A Primavera e os renovos da terra
É primavera. Não sei por que, mas a primavera me dá coisas. Começando por uma sensação de estranha mobilidade, uma sensação que faz com que eu repense a minha vida atual. Talvez seja o chão carregado de flores pisadas, mas com o perfume ainda fresco. Talvez seja o reflexo de luz por entre as árvores que me recosto. Eu adoro o vai e vem das folhas o meu quintal.
Por instantes, penso que sei do universo. Não digo que conheço o universo, mas sei sem saber que a vida está se refazendo, organicamente. É quando também volto à terra, humilde, cansado e desvanecido. Sim, porque também preciso me refazer e buscar forças outras pra encarar a vida de frente e encarar a minha verdade de frente.
A minha verdade nunca me agradou. E se há alguma coisa que me incomoda em ser gente (ou aspirar em ser humano) é o fato de que jamais alcanço minhas raízes. Eu quero dizer que, por vezes, não me sinto parte de nada. E vivo procurando uma forma telepática de me encontrar.
Mas há tanto que já me perdi que temo em achar-me tarde demais. Temo em tomar gosto pelo abismo, pelo ato de se perder, pois perder-se é um achar-se muito perigoso.
Sinto, nesta primavera, que é hora de retornar à terra se eu quiser continuar vivendo. O mundo é um emaranhado de opiniões sobre ele. E ninguém sabe de nada, ninguém tem tempo de saber.
Dias destes acordei triste. Fazia um sol como no inferno e há dias não chovia. Tive por um momento a sensação de estar sob forte pressão na terra dos homens. Tive a sensação de que eu não me enquadro em perfil algum e que, mesmo assim, minhas atitudes estavam me levando para um quarto escuro.
Neste quarto escuro, eu podia ouvir ao longe gritos e revoltas. Mas o pior de tudo é que eu havia perdido o direito de também gritar, eu era mudo, eu existia simbolicamente. Eu estava como as folhas caídas do meu quintal, sendo pisadas voluntariamente por seres bem maiores do que elas.
Então, resolvi parar de lutar, me deixei ser pisado. As pessoas que andam sobre o mundo esperam uma oportunidade para acusar um criminoso. Cometi muitos erros na minha ânsia de ver todas as coisas como elas realmente são e isto me levou para o quarto escuro de que falei. Porque ainda que eu tenha a razão, se eu falasse, eu seria arrastado.
Falta-me o direito de denunciar, pois eu também faço parte deste grande círculo de erros e acertos. Mas quanto ao crime, uma bala só é suficiente para matar um facínora. As demais balas se resumem em vontade de matar, em prepotência de quem atira – e este se torna criminoso de igual modo.
A justiça, meu amor, a justiça é algo que é sempre praticado de forma equivocada. Pois dentro de todo homem justo há um facínora em potencial - nada do que é humano me é estranho. Para me livrar de todas as vibrações que criei, preciso de reciclagem, porque eu tenho os meus lobos. E não quero ser insensível à dor alheia, não quero ser o que eu fui um dia. Terei que sair pela por dos fundos para me salvar de mim mesmo. E como a primavera, terei que me deixar cortar para só assim voltar mais forte ano que vem.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
O Guardador de Rebanhos - Fernando Pessoa

Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
sábado, 7 de agosto de 2010
I´m So Moving On! - D. Donson

Fiquei em um hotel há metros da praia, então à noite eu costumava sair pra caminhar e ver as pessoas de Santos. No penúltimo dia, coloquei meu fone e minhas músicas on, saí bem distraído pela orla, andando devagar, sendo uma coisa muito rara: eu estava sendo livre. Parei na escola de surfe, fiquei algum tempo observando sozinho o mar escuro, a forma como as ondas se interpõem na areia. Então pensei que seria mesmo um grande desafio ultrapassar todas as fronteiras geográficas.
Porque quando eu ultrapasso uma fronteira física, eu ultrapasso, antes de tudo, uma barreira interna. Eu quero dizer que a descoberta, a distância e uma nova forma de vida me apontam caminhos. Espero não retornar da mesma forma que estou indo, estou partindo pra reciclagem e exijo um novo Daniel...hehehe. Nada de me devolver em terra para minha vida atual, quero uma ruptura, uma mudança, pois o cotidiano me mata.
Ainda na escola de surfe, vendo ao longe as luzes dos navios que atracavam no porto, pensei: em todo momento há gente que chega e gente que vai. E o mundo tem muitas pessoas, nunca se sabe quem é que se irá encontrar e quão decisivas estas pessoas serão em nossas vidas. Por isto, irei viajar de peito aberto, embora triste com o que poderia ter sido aqui e até agora não foi.
Quando eu estiver no avião, colocarei I´m leaving on a jetplane que é uma das músicas mais românticas que conheço. Ou quem sabe I say a little prayer for you, que é um hino do amor. Também colocarei Sorry to Myself, que é para me lembrar que devo tentar machucar menos as pessoas. Mas quando eu voltar, colocarei Thank You, da Alanis. Porque acho que esta longa viagem será o meu retiro espiritual, a minha própria Índia e a sua espiritualidade.
Isso, estou saindo de cena para voltar mais forte e mais bonito, no sentido conotativo! Hehehe. No final das contas, a gente não está querendo provar nada a ninguém. A gente só está querendo sentir o mundo e as pessoas e Deus de um modo diferente. Gostaria de enxergar Deus nas pessoas e nas coisas. Gostaria de enxergar o amor e sentir o amor por Deus, pelas pessoas e pelas coisas. Se eu puder enxergar tudo isso, ainda que de relance – porque a verdade é um relance – terá valido a pena me ausentar.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Noite sem fim - D. Donson

Não é a toa que entendo quem jamais dispensa uma balada. Quem não conhece a vida noturna de certos clubes e bares, não entenderá o que irei falar. Começamos, pois, pela liberdade que a noite promete. Do momento em que saímos do banho e nos arrumamos, até as luzes caleidoscópicas da pista de dança: com bons amigos ao lado, pelo menos a diversão é garantida.
Cada pessoa tem um estereótipo físico do que deseja encontrar nessa longuíssima noite. A moda também se faz presente, grandes estilistas, brands: Gucci, Fendi, Prada, Valentino, Armani, Calvin...hehehe. O que todos nós - os que freqüentam estes locais - já aprendemos é que algumas destas noites escondem grandes surpresas. Boas ou más, elas quebram com a maldição do cotidiano e da trivialidade de tarefas repetitivas e fuckin cansativas. Talvez este seja o grande segredo: a quebra, a ruptura, a novidade.
Também devo salientar que em tais locais algumas pessoas se tornam irreconhecíveis. Isso porque estão sendo, por uma noite, livres – coisa que assunta. Portanto, elas fazem coisas que jamais caberiam no seu dia-a-dia, no mundo real que envolve a todos nós. Estou tentando falar de algo que é pungente dentro do ser humano, mas não quero dar um tom didático, pois não tenho nada a ensinar.
Ocorre que algumas noites podem se tornar odisséias de grandes romances ou aventuras. Há quem jure que viveu um autêntico relacionamento numa única noite. Há também aqueles que optam por beijar 15155148886313 de bocas, ainda que no dia seguinte não se lembrem do rosto de ninguém. Há ainda aqueles que, como eu, entram com o pé esquerdo na grande festa (porém, muito alinhado, obrigado) e sem grandes expectativas, apenas o compromisso de celebrar um momento de... de liberdade.
No entanto, me parece que a falta de pretensão dá ocasião à surpresa. Justo eu que, dos meus três amigos, sou o menos baladeiro. Pois depois de insistentes ligações resolvi conhecer certos novos clubes em outra cidade. Tive grandes descobertas das quais pouco irei falar, pois o dia já amanheceu e nunca consegui na vida lidar com os restos do carnaval.
Com isso, quero dizer que não sei o que foi real, já que tudo que se vive lá parece desaparecer com a luz do dia. Me lembro bem da sexta-feira FREAK, todas as músicas que eu amo foram tocadas: Cold, Avril, Alanis, Oasis e até Elis Regina. O sábado eu guardo comigo, mesmo sob o efeito duas doses de Jack...hehehe – o sábado é meu.
Esqueci o que eu pretendia com este post, vou parar um pouco para um café, já são 2h da manhã e o mundo descansa, menos eu que tenho insônia. Voltei. Lembrei: a noite também pode ser mágica, como se uma fada me dissesse: “Apenas por esta noite, você terá o que você quiser. Quando sol aparecer você precisa estar longe daqui”...hehe. Gostaria de dizer que... que aceitei as condições. Mesmo sabendo que brinquei de bola sem bola e que numa noite como estas, a única garantia é a deliciosa vertigem do momento.
Espero ter sido menos melancólico que o usual, afinal, não estou triste hoje, só um pouco cansado. Talvez sábado eu aceite novamente as condições e esta fada anônima me faça o favor de repetir meu desejo...hehehe. Eu acho que devo ser alguém especial: se eu não existisse, a Disney me inventaria...hehehe. Acho melhor ir dormir, XOXO.




